Documentos divulgados revelam CPF de Jeffrey Epstein

O CPF de Jeffrey Epstein aparece como regular na Receita Federal desde 2003. Documento citado pelo DOJ e confirmado pelo ICL Notícias amplia o alcance das investigações sobre conexões no Brasil.
CPF de Jeffrey Epstein citado em documentos divulgados pelo Departamento de Justiça dos EUA
Documentos divulgados pelas autoridades americanas mencionam CPF de Jeffrey Epstein registrado no Brasil desde 2003. Foto: Reprodução

Entre os arquivos tornados públicos pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos há dez dias, um item chama atenção pela dimensão institucional: o CPF de Jeffrey Epstein registrado no Brasil aparece como ativo na base da Receita Federal. O documento foi confirmado pelo ICL Notícias após consulta ao sistema oficial, que indica emissão em 23 de abril de 2003 e data de nascimento idêntica à das certidões americanas do financista, 20 de janeiro de 1953.

A lista de itens apreendidos nas residências do financista menciona um “Brazilian CPF” e também uma procuração relacionada ao Brasil. O cruzamento entre os arquivos americanos e a base da Receita indica que o cadastro permanece com status “regular”.

CPF de Jeffrey Epstein e a resposta da Receita

Procurada pelo ICL Notícias, a Receita Federal informou que estrangeiros sem residência no país devem se inscrever no cadastro “para controle da Receita Federal, sem finalidade de identificação civil”. O órgão acrescentou que a manutenção do registro após o falecimento, quando não comunicado às autoridades brasileiras, não gera prejuízo ao controle fiscal.

Instituições financeiras e órgãos públicos exigem o documento fiscal para a abertura de contas bancárias, a constituição de empresas e a aquisição de bens. Embora não represente nacionalidade, o registro amplia a formalização da presença de Epstein no Brasil nos anos 2000.

Investigação sobre possível aliciamento

A revelação ocorre enquanto o Ministério Público Federal (MPF) conduz procedimento sigiloso instaurado na última terça-feira (10/02) para apurar possíveis casos de tráfico internacional de pessoas envolvendo brasileiras.

Em entrevista à BBC News Brasil, a procuradora Cinthia Gabriela Borges, da Unidade Nacional de Enfrentamento ao Tráfico Internacional de Pessoas, afirmou que o MPF “está atento” a situações em que mulheres no Brasil possam ter sido levadas aos Estados Unidos com finalidade de exploração sexual. Ela destacou que as vítimas precisam participar da investigação para que o órgão avance na apuração e enfatizou que o MPF não as trata como responsáveis.

Mensagens analisadas pela BBC indicam ainda solicitações de apoio financeiro para despesas pessoais e intermediação de contatos com outras mulheres. A procuradora destacou que, após mudança legislativa em 2016, é necessário comprovar vício de consentimento para caracterizar o crime de tráfico internacional de pessoas.

Leia também: Arquivos do caso Epstein citam recrutamento de mulheres no RN em mensagens

Cadastro brasileiro de Epstein, linha do tempo e últimos registros

Os documentos também mostram que as conexões de Jeffrey Epstein com o Brasil não ficaram restritas aos anos 2000. Há registros de interações e viagens relacionadas ao país até 2019, pouco antes de sua prisão em 6 de julho daquele ano, em Nova York.

Entre os registros mais recentes, há menções à circulação de interlocutores de Epstein em capitais brasileiras naquele mesmo ano. Os arquivos citam visitas e tratativas que não avançaram. Esses apontamentos constam no material divulgado pelas autoridades americanas. Eles ajudam a compor a cronologia final de contatos vinculados ao Brasil antes do desfecho judicial do caso nos Estados Unidos.

O CPF de Jeffrey Epstein, isoladamente, não comprova atividade ilícita. No entanto, a associação do dado a documentos oficiais e a investigações em curso amplia o alcance institucional das conexões do financista com o Brasil. Esse contexto também reforça o escrutínio das autoridades.



Foto de Ramylle Freitas

Ramylle Freitas

Ramylle Freitas é jornalista formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Atua na cobertura de política e geopolítica no J1, com produção de conteúdos analíticos voltados ao cenário institucional, relações internacionais e dinâmicas de poder. Também colabora com a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), reforçando o compromisso com apuração rigorosa e checagem de fatos.

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