Na sexta-feira (20/02), a Suprema Corte dos Estados Unidos derrubou parte das sobretaxas do tarifaço de Trump, iniciado em abril do ano passado, quando o governo americano aplicou uma taxa adicional de 10% sobre produtos importados do Brasil. Segundo cálculo da Confederação Nacional da Indústria (CNI), as medidas tarifárias atingiram US$ 21,6 bilhões em exportações brasileiras aos EUA, com base em dados de 2024 da Comissão de Comércio Internacional dos Estados Unidos (USITC).
Embora parte dessas tarifas adicionais tenha sido derrubada, o efeito já aparece nas estatísticas comerciais. As exportações caíram de US$ 40,37 bilhões para US$ 37,72 bilhões, retração de 6,6%. O recuo interrompeu trajetórias de expansão em setores industriais e agrícolas, além de pressionar margens de exportadores. A investigação sobre o impacto real, contudo, vai além da queda agregada.
Como o tarifaço de Trump incide sobre as exportações brasileiras
O tarifaço de Trump elevou o custo de entrada de produtos brasileiros no mercado americano, afetando cadeias como indústria de transformação, aço, alimentos processados e bens de maior valor agregado. Mesmo com exceções posteriores, empresas já haviam reajustado preços e redirecionado contratos.
A volatilidade tarifária também reduziu previsibilidade para exportadores. Contratos de longo prazo ficaram expostos à oscilação de alíquotas, o que dificultou planejamento logístico e financeiro. Esse ambiente levou parte do setor a buscar alternativas em outros mercados, ainda que a absorção não seja imediata.
Agricultura e commodities sob ajuste
Produtos como café, carnes e frutas chegaram a enfrentar sobretaxas acumuladas que atingiram 50% antes de negociações posteriores. Embora alguns itens tenham sido retirados da lista, o intervalo de vigência afetou fluxo de embarques e competitividade frente a concorrentes asiáticos e latino-americanos.
No caso das commodities agrícolas, o impacto não se resume ao imposto direto. O aumento do custo altera contratos futuros, encarece financiamento e reduz margem em cadeias dolarizadas. Além disso, compradores americanos ampliam busca por fornecedores alternativos quando enfrentam instabilidade regulatória.
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A Suprema Corte limitou parte das medidas ao entender que o Executivo extrapolou competências. Ainda assim, o presidente anunciou nova tarifa global de 10%, mantendo pressão sobre o comércio bilateral Brasil–EUA.
Também na sexta-feira (20), durante viagem oficial à Índia, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou a jornalistas que o Brasil é “grande demais para ser quintal” de qualquer país e defendeu uma relação comercial “madura”, com “vantagens mútuas”, com os Estados Unidos. Segundo ele, a competitividade brasileira não será afetada pelas disputas tarifárias.
Para a CNI, o volume atingido mostra o peso da relação comercial entre os dois países. O governo brasileiro sustenta que a competitividade brasileira permanece preservada, mas admite necessidade de monitoramento constante do ambiente externo.
E agora?
O tarifaço de Trump expôs a dependência de segmentos exportadores do mercado americano e acelerou debates sobre diversificação de destinos. A retração nas exportações brasileiras aos EUA indica que disputas tarifárias produzem efeitos rápidos na balança comercial e na estratégia empresarial. Se o ambiente tarifário seguir instável, empresas brasileiras tendem a revisar portfólio de mercados e ampliar acordos regionais para reduzir exposição a decisões unilaterais.