O presidente Lula e o líder sul-coreano, Lee Jae-myung, anunciaram nesta segunda-feira (23/02), em Seul, a elevação das relações bilaterais ao grau de parceria estratégica, com foco direto em cadeias industriais de alta tecnologia e na retomada de negociações comerciais interrompidas desde 2021. A decisão foi formalizada após cerimônia na Casa Azul, sede presidencial da Coreia do Sul, e veio acompanhada da assinatura de dez atos bilaterais e da criação de uma comissão permanente de comércio.
Logo após a solenidade, os dois presidentes detalharam um plano plurianual que inclui minerais críticos, semicondutores, inteligência artificial, cooperação sanitária e diálogo econômico. O intercâmbio entre os países gira em torno de US$ 11 bilhões, e a Coreia ocupa a quarta posição entre os parceiros asiáticos do Brasil. Para além dos números, a negociação incorpora três frentes que podem redefinir a inserção industrial brasileira, ao priorizar setores de maior valor agregado e cadeias produtivas estratégicas.
“O Brasil é o principal destino dos investimentos coreanos na América Latina. Com um intercâmbio de US$ 11 bilhões, a Coreia é nosso 4º parceiro comercial na Ásia”, analisou. “Agora, damos início a um renovado ciclo de desenvolvimento e prosperidade compartilhada entre Brasil e Coreia”, destacou o presidente Lula.
Minerais críticos e semicondutores: acesso à tecnologia e agregação de valor
A primeira frente envolve minerais estratégicos, processamento industrial e a cadeia global de chips. A Coreia do Sul é o segundo maior fabricante mundial de semicondutores e detém cerca de 60% do mercado global de chips de memória. O Brasil, por sua vez, concentra reservas relevantes de insumos minerais.
Lula afirmou que busca internalizar etapas produtivas. “A transição energética abre novas frentes de complementariedade entre setores produtivos”, declarou. Em outra fala isolada, reforçou: “As cadeias de minerais críticos guardam inúmeras oportunidades de agregação de valor”.
O entendimento não cria obrigação vinculante nem fixa prazos, mas institui grupos de trabalho ministeriais que formarão uma Comissão Bilateral sobre Relações Comerciais, com reuniões anuais. A arquitetura é diplomática, mas o foco é industrial.
Lula e líder sul-coreano retomam acordo Mercosul-Coreia após três anos
A segunda frente envolve o acordo Mercosul-Coreia, cuja última rodada ocorreu em 2021. Segundo publicado pelo portal Metrópoles, a retomada era prioridade do governo sul-coreano antes mesmo da viagem brasileira.
Durante a declaração conjunta, Lula confirmou: “Discutimos caminhos para retomar as tratativas interrompidas em 2021”. O presidente Lee Jae-myung reiterou interesse em ampliar o comércio com o bloco sul-americano.
O avanço, contudo, depende de convergência regulatória e sensibilidade política dentro do próprio Mercosul, tema que pode alterar o ritmo das negociações.
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Saúde, carne bovina e tecnologia regulatória
A terceira frente abrange cooperação sanitária, exportação de carne bovina, produção de vacinas, pesquisa em genômica, além de diálogo entre a Agência Nacional de Vigilância Sanitária e autoridades coreanas.
Lula mencionou a abertura do mercado coreano à proteína brasileira. “A conclusão dos procedimentos sanitários poderá beneficiar os consumidores coreanos”, disse. Também citou um futuro hospital inteligente em São Paulo como exemplo da integração tecnológica pretendida.
Os memorandos incluem ainda apoio a startups, pequenas e médias empresas, além de cooperação em transição energética, bioeconomia e segurança alimentar.
A elevação ao status de parceria estratégica ocorre após um intervalo de mais de uma década sem visita oficial de um presidente brasileiro ao país asiático. Ao mesmo tempo, consolida o giro diplomático do Brasil em direção à Ásia, considerada polo dinâmico da economia global.
No cenário internacional marcado por disputas tecnológicas e reorganização das cadeias produtivas, Lula e o líder sul-coreano optaram por estruturar um canal permanente de integração industrial. O teste agora será transformar memorandos em projetos executáveis e converter complementariedade em produção local. Se a comissão bilateral avançar além do rito diplomático, o acordo pode reposicionar o Brasil em segmentos de alta tecnologia. Caso contrário, permanecerá como sinal político em um tabuleiro cada vez mais competitivo.