OAB pede fim do inquérito das fake news ao STF após quase 7 anos

OAB pede fim do inquérito das fake news e questiona duração de quase sete anos no STF. Entidade aponta excesso de alcance e debate limites constitucionais da investigação.
OAB pede fim do inquérito das fake news ao STF; ministro Edson Fachin em sessão
Presidente do STF, ministro Edson Fachin, recebeu pedido da OAB para encerrar o inquérito das fake news. Foto: Nelson Jr./SCO/STF

Quase sete anos após sua abertura, o Inquérito nº 4.781, conhecido como inquérito das fake news, voltou ao centro da agenda institucional do Supremo Tribunal Federal (STF). Nesta segunda-feira (23/02), a Ordem de Advogados (OAB) pede o fim do inquérito ao STF e contesta a continuidade do que classificou como apurações de “natureza perpétua”.

O Conselho Federal da OAB e o Colégio de Presidentes das seccionais estaduais encaminharam o ofício ao presidente do STF, ministro Edson Fachin. A entidade afirma que a permanência de apurações de longa duração exige cautela reforçada, sobretudo quando adotadas como solução institucional extraordinária. A discussão, contudo, ultrapassa o pedido formal e atinge a arquitetura jurídica do procedimento.

Duração se aproxima de sete anos e levanta debate constitucional

Instaurado em março de 2019, o inquérito se aproxima de sete anos de tramitação. Para a OAB, o tempo prolongado demanda análise sob a ótica da duração razoável do processo, prevista na Constituição.

No documento de sete páginas, a entidade sustenta que o objeto da investigação ganhou contornos amplos demais. A crítica central recai sobre a chamada elasticidade do objeto investigativo, que, segundo a Ordem, compromete a previsibilidade jurídica e fragiliza a segurança jurídica. A carta afirma que o modelo brasileiro prioriza apuração de fatos determinados, e não procedimentos abertos à incorporação sucessiva de novas condutas. Para além do tempo, a controvérsia atinge o desenho institucional do próprio Supremo.

Origem do inquérito e formato atípico

O Inquérito 4.781 foi aberto de ofício pelo então presidente do STF, ministro Dias Toffoli, sem provocação do Ministério Público. Alexandre de Moraes foi designado relator sem sorteio. À época, a Corte justificou a medida como resposta a ataques, ameaças e campanhas de desinformação contra ministros.

Segundo o STF, a investigação busca proteger a independência do Judiciário e o Estado de Direito, além de apurar possíveis esquemas de financiamento e disseminação em massa de conteúdos considerados ilegais nas redes sociais. Desde então, novas frentes foram incorporadas, inclusive apurações envolvendo quebra de sigilo de dados de ministros e familiares, inclusive do próprio relator. Esse ponto recente intensificou o debate institucional.

OAB pede fim do inquérito e coloca limites do STF em debate

Ao sustentar que não questiona o contexto inicial da abertura, a OAB afirma que o cenário mudou e que a investigação deve observar limites constitucionais claros. O argumento central não é sobre mérito das apurações, mas sobre forma, alcance e temporalidade.

No plano institucional, o pedido coloca em análise a combinação entre poder investigativo do Supremo e controle externo típico do sistema acusatório. Se mantido sem delimitação objetiva, o modelo pode redefinir o padrão de atuação do tribunal em casos envolvendo ataques institucionais, liberdade de expressão e crimes digitais.

No momento em que OAB pede fim do inquérito, o debate deixa de ser apenas jurídico e passa a medir até onde vai a autonomia investigativa do STF e quais balizas constitucionais devem enquadrá-la.

Foto de Ramylle Freitas

Ramylle Freitas

Ramylle Freitas é jornalista formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Atua na cobertura de política e geopolítica no J1, com produção de conteúdos analíticos voltados ao cenário institucional, relações internacionais e dinâmicas de poder. Também colabora com a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), reforçando o compromisso com apuração rigorosa e checagem de fatos.

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