Acordo Mercosul-União Europeia avança no Brasil, mas teste real começa agora

O acordo entre Mercosul e União Europeia avança no Brasil e entra na fase decisiva no Congresso. Redução gradual de tarifas, cotas agrícolas e cláusulas ambientais definem o alcance econômico do tratado, que ainda depende de ratificação interna e europeia. Saiba mais.
Acordo Mercosul União Europeia assinado por representantes dos blocos
Presidente Lula e a presidente da Comissão Europeia (CE), Ursula van der Leyen, durante reunião no Palácio do Itamarati antes da assinatura do acordo Mercosul em janeiro. (Foto: Foto: Ricardo Stuckert/PR)

O Acordo Mercosul União Europeia avançou no Brasil com aprovação unânime na Representação Brasileira no Parlamento do Mercosul e agora entra na fase decisiva no Congresso Nacional. A etapa legislativa definirá o ritmo de implementação de uma área de livre comércio que conecta dois grandes blocos econômicos e mais de 720 milhões de consumidores.

O texto, assinado em janeiro e enviado ao colegiado em fevereiro pelo Executivo, consolida a estratégia de ampliar a integração comercial com o mercado europeu. Ainda assim, sua vigência depende de aprovação na Câmara, no Senado e nos parlamentos da Argentina, do Paraguai, do Uruguai e da própria União Europeia (UE). A tramitação, portanto, deixa o campo diplomático e entra no cálculo político interno.

Acordo Mercosul União Europeia redesenha tarifas em prazos longos

O acordo estabelece eliminação gradual de tarifas. Portanto, o Mercosul retirará impostos sobre 91% dos bens europeus em até 15 anos, enquanto a UE fará o mesmo para 95% dos produtos do bloco em até 12 anos. A arquitetura prevê transição diluída para acomodar cadeias produtivas e reduzir impactos abruptos.

Há ainda tarifa zero imediata para segmentos industriais como máquinas e equipamentos, autopeças, produtos químicos e aeronaves. O acesso ampliado ao mercado europeu, cujo PIB gira em torno de US$ 22 trilhões, pode ampliar as exportações brasileiras, mas o resultado dependerá de competitividade e adaptação tecnológica. A promessa de ganho, contudo, convive com salvaguardas que limitam excessos.

Agricultura no Acordo Mercosul União Europeia opera sob cotas e salvaguardas

No eixo agrícola, o acordo entre Mercosul e União Europeia adota cotas de importação para produtos como carne bovina, frango, arroz, mel, açúcar e etanol. Acima dos volumes definidos, incidem tarifas. O desenho busca preservar setores sensíveis, sobretudo no lado europeu.

O tratado também inclui salvaguardas agrícolas, permitindo reintrodução temporária de tarifas se importações crescerem além de limites pactuados ou pressionarem preços internos. Para além da retórica de abertura, o mecanismo revela cautela estrutural e condiciona ganhos imediatos à disciplina comercial.

Leia também: Acordo Mercosul-UE: impacto aduaneiro a exportadores repercute no RN

Cláusulas ambientais e regras sanitárias moldam a execução

O acordo Mercosul-União Europeia incorpora cláusulas ambientais vinculantes. Produtos beneficiados não podem estar ligados a desmatamento ilegal, e o descumprimento do Acordo de Paris pode levar à suspensão do tratado. A UE mantém padrões rigorosos de regras sanitárias e fitossanitárias, preservando critérios técnicos de segurança alimentar.

Além disso, o texto trata de serviços financeiros, telecomunicações, compras públicas, propriedade intelectual e facilitação aduaneira para pequenas e médias empresas. Segundo a ApexBrasil, a implementação pode elevar em cerca de US$ 7 bilhões as vendas externas brasileiras. Estimativa, inclusive, que exige confirmação na prática comercial.

E agora?

Agora, o acordo entre Mercosul e União Europeia deixa de ser um entendimento entre governos e passa a depender da correlação de forças nos parlamentos.

Em um cenário global de disputas tarifárias e revisão de cadeias produtivas, o tratado coloca o Brasil diante de um cálculo estratégico: ampliar presença no comércio internacional com regras previsíveis ou administrar uma abertura gradual sob vigilância política e ambiental. A decisão agora não é diplomática, é legislativa e definirá o alcance real do acordo.

Foto de Moises Freire Neto

Moises Freire Neto

Moisés Freire Neto é jornalista, formado pela Universidade Estadual do Ceará (UECE), com atuação focada em economia, mercado de trabalho, indústria e políticas públicas. Integra as equipes editoriais do J1 e do Economic News Brasil, veículos do Sistema BNTI de Comunicação. Sua produção é voltada à análise de dados, decisões institucionais e impactos econômicos, com abordagem crítica, rigor factual e interesse público.

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