A delação do esquema do INSS passou a incluir o filho mais velho do presidente da República e uma ex-ministra do governo Bolsonaro no núcleo político sob investigação. O acordo firmado por dois ex-dirigentes da autarquia altera o alcance da apuração sobre descontos em aposentadorias e amplia a pressão institucional sobre o caso revelado no fim de 2023. A informação é do Metrópoles.
Os delatores são o ex-procurador do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), Virgílio Antônio Ribeiro de Oliveira Filho, e o ex-diretor de Benefícios André Fideles. Ambos estão presos desde 13 de novembro e negociam colaboração premiada. Segundo apuração publicada pelo portal Metrópoles, eles teriam citado Fábio Luiz Lula da Silva, conhecido como Lulinha, além de políticos do Centrão. A defesa de Virgílio, no entanto, nega que haja delação formalizada. A investigação, contudo, avança em outra frente sensível.
Delação do esquema do INSS expande o eixo político da apuração
O nome de Flávia Perez, ex-mulher do ex-governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, também aparece entre os mencionados. Ex-ministra da Secretaria de Relações Institucionais no governo Jair Bolsonaro, ela surge pela primeira vez vinculada ao caso. O conteúdo da colaboração ainda não foi tornado público integralmente, mas a inclusão de figuras com passagem pelo Executivo federal amplia o alcance político da investigação.
Além disso, o caso conecta personagens do INSS a relações empresariais paralelas. Flávia é casada com Augusto Lima, diretor-executivo do Banco Master e ex-sócio do empresário Daniel Vorcaro. Não há acusação formal contra o banco no material descrito, porém o entrelaçamento de relações pessoais adiciona complexidade ao cenário. Para além das citações nominais, os números financeiros sustentam o peso do inquérito.
Valores e decisões administrativas sob escrutínio
A Polícia Federal atribui a Virgílio o recebimento de R$ 11,9 milhões, sendo R$ 7,5 milhões ligados a empresas de Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”. Os repasses teriam sido direcionados a contas e empresas vinculadas à esposa do ex-procurador. A corporação também identificou aumento patrimonial relevante no período investigado.
Já André Fideles teria recebido R$ 4 milhões entre 2023 e 2024. Na gestão dele, 14 entidades foram habilitadas por meio de Acordos de Cooperação Técnica (ACTs). Segundo o relator da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS, deputado Alfredo Gaspar, foi a administração que mais celebrou acordos desse tipo. As entidades autorizadas descontaram R$ 1,6 bilhão de aposentados, valor que hoje está sob análise dos investigadores.
Estrutura do esquema e pressão judicial
Virgílio, servidor de carreira da Advocacia-Geral da União (AGU), atuava como principal consultor jurídico do INSS. Em novembro, entregou-se à PF após mandado de prisão expedido na quarta fase da operação. A investigação também alcançou familiares de empresários e dirigentes, o que elevou a pressão por acordos de colaboração.
Antônio Carlos Camilo Antunes, apontado como operador central das empresas envolvidas, também prepara proposta de delação, segundo relatos atribuídos à investigação. Esse encadeamento de colaborações tende a ampliar o volume de informações disponíveis às autoridades.
No plano institucional, a delação do esquema do INSS desloca o foco da apuração técnica para um campo de repercussão política direta. À medida que nomes com trânsito no Executivo surgem nos depoimentos, o caso deixa de ser apenas um episódio administrativo e passa a testar a capacidade de resposta do sistema de controle e do Congresso. O desfecho dependerá da validação judicial das colaborações e da consistência das provas apresentadas — etapa que definirá se a crise permanecerá restrita ao INSS ou alcançará novos patamares no debate nacional.