Anotações de Flávio Bolsonaro expõem fragilidades nos palanques estaduais

As anotações de Flávio Bolsonaro revelam avaliação direta sobre aliados, disputa ao Senado e controle dos palanques estaduais como peça central do projeto presidencial do PL.
Flávio Bolsonaro durante evento oficial em Brasília
Flávio Bolsonaro é autor das anotações de Flávio Bolsonaro que detalham estratégia estadual do PL. Foto: Andressa Anholete/Agência Senado

As anotações de Flávio Bolsonaro, registradas em um documento interno do Partido Liberal (PL) durante reunião em Brasília na terça-feira (24/02), revelam que a viabilidade presidencial da legenda está condicionada ao desempenho nos estados e, em alguns deles, há desconfiança explícita sobre aliados estratégicos. O rascunho, intitulado “Situação nos Estados”, mapeia os 26 estados e o Distrito Federal com nomes para governos e Senado.

O documento traz indicações de pré-candidatos, prazos para conversas e avaliações diretas sobre impacto eleitoral. Em Minas Gerais, por exemplo, o vice-governador Mateus Simões (PSD) aparece com a frase manuscrita: “Me puxa p/ baixo se for candidato”. A observação indica receio de que o palanque mineiro comprometa o projeto nacional. A investigação, contudo, esbarra em um detalhe político relevante: Minas é o segundo maior colégio eleitoral do país.

Minas e SP concentram o cálculo mais delicado nas anotações de Flávio Bolsonaro

No caso mineiro, surge como alternativa o presidente da Fiemg, Flávio Roscoe, acompanhado da nota “Conversa c/ Nikolas”, em referência ao deputado Nikolas Ferreira (PL-MG). Para o Senado, os nomes de Carlos Viana e Domingos Sávio receberam destaque visual no papel, conforme mostram as anotações de Flávio Bolsonaro.

Já em São Paulo, as anotações de Flávio Bolsonaro começam com a frase “ligar Tarcísio. O vice-governador Felicio Ramuth (PSD) aparece acompanhado de um cifrão. André do Prado (PL) é citado como possível substituto na vice. Para o Senado, Guilherme Derrite (PP) foi confirmado após visita de Flávio à Papuda, na quarta-feira (25/02).

A segunda vaga permanece em aberto, com lista que inclui Renato Bolsonaro, Mario Frias, Marco Feliciano e a sigla “EB”, referência a Eduardo Bolsonaro. Para além do desenho paulista, o partido sinaliza tentativa de ampliar controle sobre o maior colégio eleitoral do país. Para além do desenho paulista, as anotações de Flávio Bolsonaro indicam tentativa de ampliar controle partidário no maior colégio eleitoral do país.

Mato Grosso do Sul e a anotação sobre “15 mi”

Entre os trechos mais sensíveis está o registro: “Pollon pediu 15 mi p/ não ser candidato”, no Mato Grosso do Sul. O deputado Marcos Pollon (PL-MS) negou a afirmação. Flávio declarou que anotou informação recebida de terceiros e que o pedido “nunca aconteceu”.

A polêmica mobilizou aliados. Pollon escreveu nas redes que “nunca pediu dinheiro para não ser candidato”. O senador reiterou que os registros eram rascunhos feitos durante reuniões e que não representavam decisões consolidadas.

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Nordeste e alianças pragmáticas

Na Bahia, a nota indica: “Conversar 1º (ACM Neto) e depois palanque completo”. No Ceará, há menção a apoio a Ciro Gomes (PSDB), acompanhada da indicação “PL na chapa”. Em Alagoas, o nome de JHC (PL) tem prazo anotado: 15 de março. Alfredo Gaspar surge com observação: “Único que pedirá voto p/ mim”.

O mapeamento também mostra estados com cenário mais definido, como o Rio Grande do Sul, marcado com “ok” ao lado da composição.

No conjunto, as anotações de Flávio Bolsonaro indicam que o PL busca ajustar cada palanque estadual ao objetivo maior de viabilizar candidatura presidencial competitiva. O desenho revela interferência direta da direção nacional, maior que em 2022, segundo o próprio senador. Em um cenário fragmentado, o partido tenta reduzir riscos regionais para evitar que disputas locais comprometam o desempenho nacional, um cálculo que pode redefinir alianças até o fechamento das chapas.

Foto de Ramylle Freitas

Ramylle Freitas

Ramylle Freitas é jornalista formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Atua na cobertura de política e geopolítica no J1 News Brasil, com produção de conteúdos analíticos voltados ao cenário institucional, relações internacionais e dinâmicas de poder. Também colabora com a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), reforçando o compromisso com apuração rigorosa e checagem de fatos.

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