Mesmo sob risco de alta global após o ataque ao Irã, o governo americano decidiu não acionar a reserva estratégica de petróleo dos EUA. A Casa Branca avalia que o mercado internacional pode absorver a tensão inicial sem necessidade de liberar barris do estoque emergencial.
A decisão ocorre às vésperas da reabertura dos mercados. O Brent fechou a US$ 72,8 e operadores projetam reação imediata diante do risco de interrupção da oferta no Oriente Médio. Ainda assim, segundo um funcionário do Departamento de Energia, não houve discussão sobre uso da SPR. A aposta oficial é que o sistema global absorva a tensão — mas o teste real começa na abertura asiática.
Reserva estratégica de petróleo dos EUA enfrenta limite estrutural
Com cerca de 415 milhões de barris armazenados, a reserva americana foi criada após o embargo árabe de 1973-74 e já serviu como instrumento de estabilização, inclusive em 2022. O mecanismo funciona como colchão contra choques temporários.
Contudo, a eficácia depende de escala e duração. Kevin Book, da ClearView Energy Partners, alerta que uma crise total no Estreito de Hormuz após os ataques coordenados de sábado (28/02) poderia superar a capacidade de compensação não apenas dos EUA, mas também das reservas coordenadas pela Agência Internacional de Energia. Para além do estoque físico, o gargalo logístico impõe variável mais sensível.
Hormuz concentra 20% da oferta global
Cerca de um quinto do petróleo mundial cruza o Estreito de Hormuz. A mídia iraniana afirmou que a passagem estaria “efetivamente” fechada, embora navios continuem operando. Dados da MarineTraffic indicam redução no fluxo de grandes embarcações, especialmente rumo ao Golfo.
Se houver bloqueio formal, a alta deixaria de ser especulativa para se tornar estrutural. Nesse cenário, a reserva estratégica de petróleo dos EUA funcionaria como amortecedor temporário, não como solução permanente.
Opep+ pode neutralizar pressão
A reação do cartel ganha peso imediato. A Opep+ deve aprovar aumento de 137 mil barris por dia em abril, mas fontes próximas ao grupo indicam que o volume pode ser três ou quatro vezes maior.
Michael Alfaro, da Gallo Partners, projeta salto de preços, porém limitado abaixo de US$ 100, justamente porque a organização tende a elevar a produção. Assim, o equilíbrio dependerá menos do estoque estratégico e mais da rapidez da resposta coordenada entre produtores.
No curto prazo, a reserva estratégica de petróleo dos EUA cumpre papel simbólico: sinaliza capacidade de intervenção, mas não altera fundamentos globais. Se a oferta no Golfo permanecer ativa, o choque pode se dissipar. Se houver interrupção prolongada, inflação energética e política monetária voltarão ao centro das decisões econômicas internacionais.