O consumo das famílias em 2025 ficou estável no 4º trimestre, com variação zero frente ao período anterior. A informação é do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no lançamento dos resultados das Contas Nacionais Trimestrais, na terça-feira (03/03). Segundo o Instituto, no acumulado do ano, o avanço foi de 1,3%, enquanto o PIB cresceu cerca de 2,3%.
O resultado ocorre mesmo com saldo positivo de aproximadamente 1,27 milhão de vagas formais em 2025, segundo o Novo Caged, também divulgado na terça, pelo Ministério do Trabalho e Emprego. A renda seguiu sustentada pelo mercado de trabalho. O cenário, contudo, revela mudança na forma como as famílias utilizam esse rendimento.
Famílias endividadas
A Confederação Nacional do Comércio (CNC) mostrou que quase 80% das famílias brasileiras declararam ter dívidas a vencer em 2025, o maior percentual da série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic). Esse quadro altera o destino da renda mensal.
Segundo o economista-chefe da CNC, Fabio Bentes, o atual nível de endividamento “começa a ultrapassar a capacidade de pagamento das famílias”, sobretudo em ambiente de crédito caro. Parte relevante da renda, portanto, deixa de ir para consumo e passa a cobrir compromissos financeiros.
Consumo familiar estável, economia lenta
Como o consumo das famílias em 2025 responde por mais de 60% do Produto Interno Bruto (PIB), qualquer estabilidade nessa rubrica limita a expansão da atividade. A economia cresce, mas sem impulso adicional da demanda interna.
O PIB cresceu cerca de 2,3% em 2025, ritmo inferior ao observado no ano anterior e com estabilidade no quarto trimestre. O percentual sinaliza perda de intensidade da demanda interna. Com o consumo das famílias avançando apenas 1,3% no acumulado do ano, a principal engrenagem da economia deixou de oferecer impulso adicional ao crescimento.
O Banco Central reforçou, em ata do Comitê de Política Monetária (Copom), que a política monetária contracionista, com juros elevados, atua para moderar a demanda agregada. Juros elevados encarecem financiamentos e reduzem compras parceladas, especialmente de bens duráveis.
Dados da Conferação Nacional do Comércio também indicam que a inadimplência alcançou cerca de 30% das famílias em 2025, com aumento no grupo que não consegue quitar débitos em atraso. Esse ambiente pressiona a renda disponível e restringe novas despesas.
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Consumo das famílias em 2025: reorganização financeira
Especialistas do mercado financeiro avaliam que o consumo das famílias em 2025 reflete um processo de reorganização financeira. Após anos de expansão do crédito, inclusive do consignado para trabalhadores do setor privado, parte da renda adicional passou a ser direcionada à quitação ou renegociação de dívidas, reduzindo o espaço para novas compras.
O IBGE não estabelece relação causal direta entre endividamento e desempenho do consumo, mas técnicos do instituto ressaltam que condições de crédito e renda moldam as decisões das famílias. A estabilidade do consumo das famílias em 2025 não indica retração disseminada, e sim um ciclo de ajuste. O emprego formal sustenta a renda e evita contração mais intensa, porém a prioridade dada ao reequilíbrio financeiro limita o impulso da demanda. Nesse arranjo, o PIB cresce, mas dentro de margens estreitas, refletindo uma economia que preserva estabilidade enquanto reorganiza seus próprios excessos.