Pesquisas recentes em biologia reprodutiva indicam que o processo de fertilização humana pode ser mais complexo do que a tradicional “corrida” entre milhões de espermatozoides. Experimentos conduzidos por cientistas das universidades de Estocolmo (Suécia) e Manchester (Reino Unido), divulgados neste domingo (08/03), sugerem que o óvulo escolhe o espermatozoide por meio de sinais químicos capazes de atrair algumas células masculinas mais do que outras.
Além disso, os pesquisadores analisaram o fluido folicular, líquido que envolve o óvulo durante a ovulação. Segundo o estudo publicado na revista científica Proceedings of the Royal Society B, esse fluido libera sinais químicos que podem favorecer determinados espermatozoides no caminho até a fertilização.
Óvulo escolhe espermatozoide por sinais químicos
Os experimentos indicam que o fluido folicular libera moléculas capazes de orientar o deslocamento dos espermatozoides. Esse processo é conhecido como quimioatração espermática.
Nesse mecanismo, substâncias liberadas pelo complexo formado pelo óvulo e pelas células ao seu redor funcionam como pistas químicas. Assim, elas ajudam a direcionar o movimento das células masculinas dentro do trato reprodutor feminino.
Segundo o urologista e andrologista Bernardo Hermanson, membro da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), essas moléculas atuam como um sistema de orientação biológica.
“Essas moléculas funcionam como um sistema de orientação. Elas ajudam a recrutar os espermatozoides capazes de responder ao gradiente químico e chegar até o óvulo”, explica.
Além disso, pesquisadores analisam a participação da progesterona, hormônio que pode ativar canais presentes nos espermatozoides. Quando isso ocorre, o padrão de movimento das células se altera e aumenta a capacidade de seguir o gradiente químico até o óvulo.
Combinação entre homem e mulher altera resposta
Os experimentos também indicam que a resposta aos sinais químicos pode variar conforme a combinação entre os gametas de cada casal.
Em testes laboratoriais, por exemplo, um mesmo espermatozoide respondeu de forma diferente aos sinais liberados por óvulos distintos.
Para Hermanson, esse comportamento sugere algum nível de compatibilidade funcional entre homem e mulher durante a fertilização.
“A atração do espermatozoide pelo fluido folicular depende muito da combinação específica entre homem e mulher. Não é apenas qual sêmen é melhor ou qual fluido é melhor, mas como eles interagem”, afirma.
Além disso, pesquisadores investigam se essa interação envolve fatores genéticos, bioquímicos ou imunológicos, que ainda permanecem em análise na biologia reprodutiva.
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Óvulo escolhe espermatozoide e levanta hipótese na infertilidade
A hipótese de que o óvulo escolhe espermatozoide também levanta uma possível explicação para parte dos casos de infertilidade sem causa aparente.
Em algumas situações, exames indicam que óvulos e espermatozoides são considerados saudáveis. Ainda assim, a fertilização não ocorre.
Segundo Hermanson, uma possível explicação envolve falhas na comunicação química entre os gametas.
“O casal pode ter gametas considerados normais nos exames tradicionais, mas uma comunicação química ineficiente entre eles”, afirma.
Mesmo assim, especialistas ressaltam que a maior parte dos experimentos ocorreu em laboratório, em condições simplificadas que não reproduzem totalmente o ambiente do corpo humano.
Nesse contexto, compreender melhor essas interações químicas pode ampliar o entendimento sobre a fertilização humana. Portanto, embora ainda esteja em investigação, a hipótese de que o óvulo escolhe espermatozoide pode influenciar futuras pesquisas e estratégias da medicina reprodutiva.