A avaliação do promotor de Justiça Lincoln Gakiya sobre o PCC (Primeiro Comando da Capital) ganhou destaque nesta quarta-feira (11/03) após ele afirmar que os Estados Unidos (EUA) podem avançar na classificação da facção como organização terrorista sem considerar a posição do governo brasileiro.
Integrante do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado do Ministério Público de São Paulo (Gaeco/MP-SP), Lincoln Gakiya relatou que participou nos últimos meses de reuniões com assessores do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, interessados em compreender a estrutura da facção.
Responsável por investigações sobre o PCC há duas décadas, Gakiya convive com ameaças constantes da organização criminosa. O promotor passou a ser alvo da facção em 2005 e, desde então, vive sob proteção permanente. Atualmente, conta com escolta policial 24 horas e segue entre os principais investigadores do país dedicados ao enfrentamento do grupo.
Avaliação de Lincoln Gakiya sobre PCC
Na entrevista, o promotor sustentou que o PCC não possui características típicas de terrorismo. Segundo ele, a facção opera como rede criminosa voltada ao lucro e à ocupação de territórios ligados a atividades ilícitas.
“O PCC nunca teve cunho ideológico ou político. Não tem ódio racial, religioso ou de etnia como objetivo”, afirmou.
Assim, para Gakiya, a lógica da organização segue modelo semelhante ao de máfias transnacionais.
Ao mesmo tempo, essa avaliação de Lincoln Gakiya contrasta com discussões em Washington sobre incluir o PCC e o Comando Vermelho em listas de terrorismo. Nesse cenário, o Departamento de Estado pode enviar a proposta ao Congresso americano, que teria sete dias para analisá-la.
Presença internacional da facção preocupa autoridades
Um levantamento do Ministério Público de São Paulo aponta que o PCC está presente em 28 países. Além disso, o mapeamento identificou 2.078 integrantes, com predominância dentro de presídios.
Investigadores relatam que a facção utiliza cadeias estrangeiras para recrutar membros e ampliar redes de tráfico de drogas, armas e lavagem de dinheiro. Dessa forma, essa estratégia tem sido apresentada a autoridades estrangeiras em encontros diplomáticos.
Representantes dos Estados Unidos estiveram em Brasília e São Paulo em 2025 para coletar informações sobre a atuação internacional do grupo. Além disso, ainda neste mês, Gakiya deve se reunir em Boston com agentes da Drug Enforcement Administration (DEA), do Federal Bureau of Investigation (FBI) e do Departamento de Estado.
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Classificação terrorista pode alterar cooperação policial
Apesar disso, o promotor argumenta que rotular a facção como terrorista pode criar obstáculos operacionais. Atualmente, segundo ele, a troca de dados ocorre diretamente entre investigadores brasileiros e agências como FBI e DEA.
Caso o enquadramento mude, essas informações poderiam passar a níveis de sigilo mais elevados, sob controle de estruturas ligadas à Central Intelligence Agency (CIA), o que reduziria o acesso de investigadores brasileiros aos dados.
Gakiya também mencionou possíveis efeitos diplomáticos. Entre eles, dificuldades de acesso a instituições financeiras multilaterais, como Banco Mundial e Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), além da possibilidade de sanções econômicas.
Enquanto isso, o governo brasileiro tenta adiar qualquer decisão até um encontro entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump na Casa Branca, ainda sem data definida. Nesse cenário, a avaliação de Lincoln Gakiya tende a influenciar discussões sobre como equilibrar cooperação internacional e autonomia investigativa no combate ao crime transnacional.