O debate sobre misoginia e cultura digital ganhou novo capítulo nesta quinta-feira (12/03) após a repercussão de um episódio no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em São José dos Campos (SP). Compreender o que é redpill e outros termos usados em comunidades online passou a integrar a discussão pública depois que estudantes apresentaram um projeto de jogo inspirado nos crimes do empresário Jeffrey Epstein.
A proposta colocava o jogador na perspectiva de uma adolescente de 15 anos sequestrada e mantida refém em uma ilha por seis homens adultos. A apresentação provocou indignação entre estudantes e, por isso, o ITA informou em nota oficial que descartou imediatamente a ideia após considerá-la inadequada para a atividade acadêmica.
Projeto no ITA e reação da comunidade acadêmica
O projeto surgiu durante uma atividade em sala de aula do curso de Engenharia da Computação. Na dinâmica proposta pelo professor, os estudantes deveriam apresentar ideias iniciais de jogos digitais que poderiam ser desenvolvidos ao longo do bimestre.
Nesse contexto, o grupo sugeriu um enredo em que a personagem precisaria encontrar um barco e combustível para escapar da ilha enquanto fugia dos sequestradores. Além disso, a narrativa fazia referência direta ao caso de Jeffrey Epstein, empresário norte-americano condenado internacionalmente por comandar uma rede de exploração sexual de menores.

A escolha do tema provocou forte reação entre colegas do instituto. Principalmente entre estudantes mulheres, surgiram manifestações de indignação em grupos de mensagens. Segundo relatos divulgados após o episódio, parte dos autores respondeu às críticas enviando figurinhas com o rosto de Epstein e mensagens afirmando que “não pensaram na conexão com a realidade”.
Diante da repercussão, o ITA declarou que descartou o projeto assim que identificou o tema como inadequado para o contexto acadêmico. Além disso, a instituição informou que passou a tratar o episódio internamente conforme as normas disciplinares do instituto.
O que é redpill na cultura da “machosfera”
O termo redpill surgiu a partir do filme Matrix, no qual o protagonista toma uma pílula vermelha para enxergar uma realidade escondida. Posteriormente, comunidades digitais conhecidas como “machosfera” passaram a usar a expressão para definir homens que afirmam ter “despertado” para uma suposta manipulação feminina.

Segundo essa narrativa, mulheres explorariam relações afetivas em busca de vantagens sociais ou financeiras. Dessa forma, os grupos defendem que homens deveriam recuperar domínio e autoridade nas relações.
Além disso, essas comunidades atuam em fóruns online, redes sociais e aplicativos de mensagens. Nesses espaços, utilizam um vocabulário próprio que funciona como código interno entre seus integrantes.
Hierarquias criadas nesses fóruns
Dentro desses ambientes digitais, usuários criaram sistemas de classificação para homens e mulheres. Assim, os termos passaram a funcionar como uma hierarquia baseada em aparência, status social e comportamento.
O arquétipo “alfa”, por exemplo, representa o homem dominante e líder. Já o “beta” aparece como figura considerada submissa ou sem influência social. Em redes como TikTok, por sua vez, também se popularizou o termo “sigma”, descrito como um “alfa solitário”.
Outro conceito recorrente é o “Chad”, personagem que representaria o homem considerado geneticamente perfeito e altamente desejado pelas mulheres. No mesmo sistema simbólico, mulheres aparecem classificadas como “Stacy”, vistas como altamente atraentes, ou “Becky”, consideradas comuns.
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O que é redpill e as teorias difundidas nesses grupos
Além das classificações sociais, esses grupos difundem teorias que tentam explicar relacionamentos entre homens e mulheres. Uma delas é a chamada “regra 80/20”, apresentada como ideia de que a maioria das mulheres competiria por um pequeno grupo de homens considerados mais atraentes.
Outra crença recorrente é a hipergamia, conceito segundo o qual mulheres buscariam parceiros de status social ou financeiro superior. Além disso, expressões ofensivas aparecem com frequência nesses espaços digitais. Entre elas está “femoids”, termo utilizado para sugerir inferioridade feminina.
A feminista Lola Aronovich, autora do blog Escreva Lola Escreva, relata sofrer ataques misóginos online desde 2008. A mobilização em torno do caso contribuiu para a criação da Lei nº 13.642/2018, que atribui à Polícia Federal a investigação de crimes misóginos na internet.
Segundo Aronovich, os ataques costumam apresentar características semelhantes.
“Desde o começo do meu blog, percebi que são homens héteros, de extrema direita. Esses homens carregam um conjunto de preconceitos”, afirmou.
Nesse contexto, o episódio envolvendo estudantes do ITA ampliou a discussão pública sobre como linguagens e referências difundidas em comunidades digitais podem influenciar comportamentos e percepções sociais. Por isso, compreender o que é redpill e os códigos da chamada machosfera passou a integrar o debate sobre misoginia, cultura digital e responsabilidade em ambientes educacionais.