Operação Shadowgun no Brasil leva a prisões em grande parte dos estados e mira rede de armas 3D

A Operação Shadowgun no Brasil cumpriu mandados em 11 estados e prendeu suspeitos ligados à produção e venda de armas feitas com impressoras 3D. A investigação identificou 79 compradores e aponta risco de abastecimento de redes criminosas com armamentos sem rastreio.
Armas, munições e equipamentos táticos apreendidos na Operação Shadowgun contra rede de armas produzidas em impressoras 3D - Foto: Divulgação/Governo de SP
Armas de fogo, munições e equipamentos táticos apreendidos durante a Operação Shadowgun, que investiga produção e venda de armamentos fabricados com impressoras 3D. - Foto: Divulgação/Governo de SP

A Operação Shadowgun no Brasil resultou na prisão de quatro suspeitos nesta quinta-feira (12/03), após investigações sobre um esquema de produção e venda de armamentos fabricados com impressoras 3D. A ofensiva cumpre 5 mandados de prisão e 36 de busca e apreensão em 11 estados, segundo autoridades responsáveis pela investigação.

A ação reúne Polícia Civil do Rio de Janeiro, Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) e Ministério da Justiça e Segurança Pública. Entre os presos está o apontado líder do grupo, localizado em Rio das Pedras, no interior de São Paulo, conforme informações divulgadas pelas autoridades.

Operação Shadowgun no Brasil e a rede de armas 3D

As investigações começaram após um alerta enviado por um órgão internacional ao Laboratório de Operações Cibernéticas (Ciberlab) do Ministério da Justiça. O aviso indicava publicações em redes sociais oferecendo armas produzidas por impressão 3D.

De acordo com a Polícia Civil, o grupo disseminava principalmente projetos de “armas fantasmas”, armamentos sem numeração de série que dificultam o rastreamento pelas autoridades.

O principal item compartilhado era o projeto de uma arma semiautomática fabricada com impressão 3D, acompanhado de um manual técnico detalhado. O documento, elaborado pelo líder do grupo, teria mais de 100 páginas com orientações para montagem e calibração do armamento.

Investigadores afirmam que o material permitiria a fabricação doméstica das armas por pessoas com conhecimento intermediário em impressão 3D e acesso a equipamentos relativamente baratos.

Estrutura técnica e propaganda online

Segundo a apuração, o grupo utilizava redes sociais, fóruns online e áreas da chamada dark web para divulgar arquivos digitais e instruções de fabricação.

O suposto líder, descrito pela polícia como engenheiro especializado em controle e automação, publicava vídeos de testes balísticos e atualizações de design das armas usando pseudônimo e com o rosto oculto.

A organização também teria estrutura interna com funções definidas. Entre elas estavam suporte técnico para usuários, produção de material de propaganda e difusão de conteúdo ideológico ligado à defesa do porte irrestrito de armas.

Distribuição e pagamentos digitais

A investigação identificou que o grupo também produzia componentes físicos de armas em impressoras 3D, vendidos a compradores em diferentes estados do país.

Os produtos eram anunciados em plataformas de comércio eletrônico e enviados pelos Correios, segundo os investigadores.

O financiamento das atividades ocorria por meio de criptomoedas e sistemas de pagamento digitais de difícil rastreamento, utilizados para adquirir equipamentos e manter a infraestrutura digital da rede.

Entre 2021 e 2022, a apuração identificou 79 compradores espalhados por 11 estados brasileiros.

Suspeita de ligação com crime organizado

Autoridades afirmam que parte dos compradores identificados possui antecedentes criminais, principalmente por tráfico de drogas e outros delitos graves.

A polícia investiga se os componentes e projetos divulgados pela rede abasteciam organizações ligadas ao tráfico ou milícias. Um dos compradores foi preso anteriormente após ser flagrado com grande quantidade de armas e munições, segundo os investigadores.

Apreensões em operação paralela em São Paulo

Durante ações relacionadas à investigação em cidades do interior paulista, agentes apreenderam oito armas de fogo, protótipos de armamentos de fabricação própria e centenas de munições.

Também foram recolhidos equipamentos balísticos, artefatos explosivos e as impressoras 3D usadas para produzir os armamentos, de acordo com a Polícia Militar paulista.

Cooperação entre órgãos de segurança

A operação mobiliza policiais civis de diferentes estados e conta com apoio da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e de unidades especializadas do Ministério da Justiça.

A investigação também teve colaboração da agência norte-americana Homeland Security Investigations (HSI), voltada ao combate a crimes transnacionais.

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Expansão de armas sem rastreio preocupa autoridades

Autoridades apontam que armas produzidas com impressão 3D representam um desafio crescente para investigações criminais, porque não possuem numeração de série nem registro oficial, o que dificulta a identificação de origem.

Esse avanço tecnológico colocou as autoridades diante de um novo desafio. A Operação Shadowgun no Brasil tenta interromper um circuito que combinava engenharia, redes digitais e logística de entrega para ampliar a circulação de armas sem rastreamento — um problema que tende a crescer com a popularização de equipamentos de fabricação doméstica.

Foto de Jussier Lucas.

Jussier Lucas.

Jussier Lucas é jornalista formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e repórter do J1 News Brasil. Atua na cobertura de política, atualidades e temas de interesse público, com experiência em reportagem, comunicação pública e assessoria de imprensa na TV Universitária (TVU) e no TRE-RN.

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