A Polícia Federal (PF) enviou ao Supremo Tribunal Federal (STF) o relatório final de uma investigação que aponta um esquema de desvio de emendas parlamentares no Ceará. No centro da apuração está o caso Junior Mano, que, segundo os investigadores, teria movimentado cerca de R$ 800 milhões entre 2020 e 2025 para financiar campanhas eleitorais e ampliar influência política em municípios do estado.
O documento foi encaminhado ao gabinete do ministro Gilmar Mendes, relator do processo no STF. No relatório, a PF afirma que o deputado federal Junior Mano (PSB) aparece como líder político de uma organização que operaria em parceria com o ex-prefeito de Choró Carlos Alberto Queiroz Pereira, conhecido como Bebeto do Choró.
Caso Junior Mano e a estrutura de desvio de recursos
De acordo com a investigação, o caso Junior Mano envolve um sistema que começava com a liberação de emendas parlamentares federais em Brasília e seguia para contratos firmados com prefeituras. Empresas ligadas ao grupo, como MK Empreendimentos, AM Transportes e Cariri Edificações, participariam de licitações simulando concorrência para garantir o controle dos contratos.
Após a contratação, os investigadores apontam que os recursos eram desviados durante a execução das obras ou por meio de pagamentos irregulares. Parte do dinheiro, segundo a PF, retornava ao grupo em forma de propina, com percentuais que variariam entre 12% e 15% sobre o valor das emendas. Um exemplo citado no relatório menciona 12% de retorno em uma emenda de R$ 1,5 milhão.
Segundo os investigadores, o grupo lavava o dinheiro obtido no esquema por meio de empresas de fachada e laranjas, com saques fracionados e repasses a operadores financeiros.
Financiamento eleitoral
Outro ponto central do caso Junior Mano é o uso dos recursos desviados para sustentar campanhas municipais. A PF afirma que o grupo teria financiado candidaturas em mais de 50 cidades, mantendo controle político em 71 municípios do Ceará, monitorados por planilhas internas.
Segundo o relatório policial, o grupo destinava parte do dinheiro à compra direta de votos, negociados entre R$ 200 e R$ 500, além de distribuir materiais e oferecer apoio financeiro a campanhas de aliados.
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Investigação da PF sobre Junior Mano
A investigação contra Junior Mano descreve uma estrutura organizada, com funções divididas dentro do grupo. Bebeto do Choró aparece como gestor central dos recursos e da articulação política local. Já operadores financeiros e empresariais ficariam responsáveis pela movimentação de valores e execução de contratos.
A PF também menciona a atuação de Adriano Almeida Bezerra, assessor parlamentar apontado como intermediador junto à Caixa Econômica Federal. Segundo a investigação, ele atuava para acelerar a liberação de contratos de repasse ligados a emendas.
Mensagens interceptadas pelos investigadores indicariam contatos políticos com diversas autoridades e figuras públicas, incluindo Silvio Costa Filho, Eunício Oliveira, José Guimarães, Yuri do Paredão e o cantor Wesley Safadão. A investigação não afirma participação dessas pessoas no esquema.
No material enviado ao STF, a PF afirma que os indícios reunidos apontam para crimes como:
- Organização criminosa com fins eleitorais;
- Lavagem de dinheiro;
- Fraude em licitações;
- Captação ilícita de votos.
Relatório policial sobre Junior Mano e defesa
A apuração da PF sobre Junior Mano também inclui o indiciamento de outros integrantes apontados como operadores financeiros, empresariais e políticos do grupo. Entre eles estão:
- Cleidiane de Queiroz Pereira
- Maurício Gomes Coelho
- Carlos Douglas Almeida Leandro
- Lúcio Alves Barroso
- Iago Viana Nascimento
Eles são citados como envolvidos em funções logísticas ou de intermediação financeira.
Procurada, a defesa do deputado afirmou que a investigação não encontrou elementos relevantes contra o parlamentar. Em nota, os advogados classificaram as conclusões do relatório como “exageradas, genéricas e sem provas” e afirmaram que o deputado não participa de licitações nem é ordenador de despesas.
Os advogados também criticaram o que chamaram de vazamento seletivo de informações sigilosas em meio às discussões sobre candidaturas para as próximas eleições. Já a defesa do ex-prefeito Bebeto Queiroz informou que todas as manifestações serão feitas apenas nos autos do processo.
A partir de agora, o caso Junior Mano entra na fase de análise no STF, que avaliará os elementos apresentados pela Polícia Federal e os próximos passos do processo.