Uma proposta dos Estados Unidos (EUA) ao Brasil entrou na mesa de negociações diplomáticas nesta sexta-feira (13/03) com um pedido direto de Washington: que o país passe a receber em seu sistema prisional estrangeiros capturados em território americano. Ao mesmo tempo, a medida integra um pacote mais amplo de cooperação em segurança discutido entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump.
Segundo apuração da jornalista Patrícia Campos Mello, da Folha de S.Paulo, a sugestão aparece como contraproposta dos Estados Unidos ao plano brasileiro de cooperação contra o crime transnacional. Além disso, a expectativa é que o tema esteja entre os principais anúncios de um encontro entre Lula e Trump em Washington, previsto para abril.
Proposta dos EUA ao Brasil inclui modelo inspirado em El Salvador
A transferência de detentos seguiria um formato semelhante ao adotado por El Salvador, que mantém presos estrangeiros na penitenciária de segurança máxima conhecida como Cecot. Nesse sentido, Washington sugere que o Brasil desempenhe papel equivalente dentro da estratégia regional contra redes criminosas.
A proposta surge dentro de uma agenda mais ampla de segurança internacional. Além disso, autoridades americanas solicitaram que o governo brasileiro apresente um plano para enfrentar organizações criminosas com atuação transnacional.
Entre os grupos citados nas conversas aparecem o Primeiro Comando da Capital (PCC), o Comando Vermelho (CV), o Hezbollah e organizações criminosas de origem chinesa que operam em território brasileiro.
Compartilhamento de dados entra na negociação
Outro ponto incluído na proposta envolve o compartilhamento de informações sobre estrangeiros que buscam refúgio no país. De acordo com autoridades americanas ouvidas pela reportagem da Folha, Washington pretende acessar dados biométricos e registros migratórios.
Com isso, o objetivo declarado é ampliar o monitoramento de rotas utilizadas por redes criminosas e por migrantes que atravessam portos e fronteiras brasileiras rumo a outros países.
A negociação ocorre após o governo brasileiro ter apresentado um plano próprio de cooperação. Entre as medidas propostas estão o combate à lavagem de dinheiro envolvendo empresas de fachada nos Estados Unidos e o bloqueio de ativos ligados a crimes cometidos no Brasil.
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Governo Lula resiste a parte das exigências
A proposta, entretanto, enfrenta resistência no Palácio do Planalto. Segundo interlocutores do governo, as demandas americanas ainda não foram aceitas e seguem em discussão entre equipes dos dois países.
Um dos pontos mais sensíveis envolve a possibilidade de Washington classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. De acordo com reportagem citada nas negociações, os Estados Unidos já teriam decidido adotar essa designação.
Na avaliação do governo brasileiro, essa classificação poderia criar base jurídica para ações diretas americanas em território nacional. Além disso, aliados do presidente temem que o tema seja explorado politicamente por adversários durante a campanha eleitoral.
O debate ocorre em um cenário em que as facções brasileiras ampliaram sua presença além das fronteiras. Atualmente, o Comando Vermelho mantém operações em ao menos oito países da América Latina, enquanto o PCC possui presença em pelo menos dezesseis nações.
Diante desse avanço internacional do crime organizado, a proposta revela uma disputa estratégica sobre como estruturar a cooperação bilateral em segurança. Assim, o desfecho das negociações pode redefinir os limites da colaboração entre os dois países e influenciar o desenho das políticas de combate a facções nos próximos anos.