Armazenagem de grãos no Brasil atinge nível crítico diante de safra recorde

A armazenagem de grãos no Brasil enfrenta déficit recorde: a capacidade deve ficar 135,4 milhões de toneladas abaixo da safra prevista em 2026, pressionando logística, preços e renda do produtor.
diferentes grãos agrícolas usados na produção brasileira como soja, milho e arroz
variedade de grãos agrícolas como milho, grão-de-bico, lentilha e arroz dispostos lado a lado, representando a produção agrícola e o desafio da armazenagem de grãos no Brasil. Foto: Freepik

A armazenagem de grãos no Brasil enfrenta um descompasso histórico em 2026. A capacidade nacional de estocagem deverá ficar 135,4 milhões de toneladas abaixo da produção esperada, estimada em 353,4 milhões de toneladas, segundo cálculos da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) com base em dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

A apuração foi publicada pelo jornal O Globo. Pelas estimativas citadas na reportagem, os armazéns brasileiros terão capacidade para guardar apenas 61,7% da safra, o menor patamar desde 2005.

Armazenagem de grãos no Brasil

O contraste com outras potências agrícolas ajuda a dimensionar o problema. Nos Estados Unidos, o potencial de estocagem chega a cerca de 130% da produção anual, o que gera um superávit de aproximadamente 30%, segundo dados citados pela CNA.

No Brasil, o quadro é inverso. Enquanto a produção de grãos triplicou nas últimas duas décadas, impulsionada pela expansão das fronteiras agrícolas e pelo avanço tecnológico no campo, a infraestrutura de pós-colheita não acompanhou o mesmo ritmo de crescimento.

Sem capacidade suficiente de armazenamento, muitos produtores são obrigados a escoar a safra imediatamente após a colheita. Nesse cenário, caminhões acabam funcionando como “armazéns sobre rodas”, concentrando o fluxo de carga em rodovias, portos e ferrovias.

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Capacidade de estocagem agrícola

Além da pressão logística, o problema também afeta diretamente a negociação dos produtores. Sem armazéns próprios, eles precisam vender rapidamente a produção, reduzindo a margem para esperar melhores preços no mercado internacional.

Esse desequilíbrio fortalece o papel das grandes tradings globais, como Cargill, Bunge, Louis Dreyfus e Cofco, que dominam a comercialização de grãos no comércio internacional.

Segundo Lucas Costa Beber, presidente da Aprosoja-MT, a falta de estrutura obriga muitos agricultores a antecipar vendas.

“A falta de armazenagem obriga o produtor a fazer uma venda mais rápida. Ele tem que entregar direto para a trading rapidamente, ficando refém daquele preço e pagando custos maiores”, afirmou.

Os gargalos aparecem principalmente nas regiões que lideram a expansão agrícola. Mato Grosso registra o maior déficit, estimado em 53,4 milhões de toneladas, seguido pelo Matopiba, região que reúne Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, com 22,2 milhões, além de Goiás (17,9 milhões) e Mato Grosso do Sul (15,2 milhões).

Custo e financiamento da armazenagem

Mesmo com o problema conhecido, o investimento em novos silos avança lentamente. Construir um armazém pode exigir entre R$ 10 milhões e R$ 25 milhões, e o retorno financeiro costuma levar anos.

O Programa para Construção e Ampliação de Armazéns (PCA), principal linha de crédito voltada ao tema, não tem sido totalmente utilizado pelos produtores. Segundo cálculos do FGV Agro, eles contrataram, em média, apenas 64% dos recursos disponíveis nos últimos anos.

No campo, o impacto é direto na rentabilidade do produtor. João Luiz Ferri, que cultiva soja, milho e trigo em 500 hectares no Paraná, afirma que a ausência de armazenagem reduz a autonomia na hora de vender a produção.

No conjunto, a armazenagem de grãos no Brasil revela um gargalo estrutural fora da porteira: a produção agrícola cresce de forma acelerada, mas a infraestrutura de estocagem e logística avança mais lentamente, pressionando custos, concentrando o escoamento da safra e reduzindo o poder de negociação dos produtores.

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Ramylle Freitas

Ramylle Freitas é jornalista formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Atua na cobertura de política e geopolítica no J1 News Brasil, com produção de conteúdos analíticos voltados ao cenário institucional, relações internacionais e dinâmicas de poder. Também colabora com a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), reforçando o compromisso com apuração rigorosa e checagem de fatos.

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