Um poço com petróleo no Ceará entrou no radar da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) após uma vistoria técnica em uma propriedade rural de Tabuleiro do Norte. A inspeção ocorreu na quinta-feira (12/03). Técnicos da agência visitaram o local depois que um agricultor encontrou um líquido escuro e viscoso ao perfurar o solo em busca de água.
A descoberta ocorreu em novembro de 2024. Na ocasião, o agricultor Sidrônio Moreira, de 63 anos, perfurou dois poços em sua terra na comunidade de Sítio Santo Estevão. Em vez de água, surgiu um material escuro e viscoso, com odor semelhante ao de derivados de petróleo. O líquido apareceu a cerca de 40 metros de profundidade, nível considerado incomum para esse tipo de ocorrência.
Poço com petróleo Ceará sob análise técnica da ANP
Segundo Ildeson Prates Bastos, superintendente da ANP, a equipe técnica estranhou a situação. A perfuração ocorreu em profundidade muito menor do que a usada na exploração petrolífera.
“Existe o processo de exsudação, que é quando o petróleo ou hidrocarboneto como um todo vai à superfície de maneira natural. Mas não é o caso, claramente, aqui. Houve uma perfuração rasa, uma profundidade muito abaixo do que é naturalmente realizado na exploração e produção de petróleo e gás”, afirmou.
Além disso, testes laboratoriais preliminares conduzidos pelo Instituto Federal do Ceará (IFCE) indicaram que a substância possui características físico-químicas semelhantes às do petróleo produzido em campos do Rio Grande do Norte. Ainda assim, a ANP considera o resultado preliminar. O órgão informou que novas análises laboratoriais serão necessárias para confirmar a natureza do material.
A área onde ocorreu o achado possui cerca de 49 hectares. Ela fica na zona rural do município de Tabuleiro do Norte. A cidade está localizada a aproximadamente 210 quilômetros de Fortaleza e 22 quilômetros do centro urbano.
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Geologicamente, a área está inserida na Bacia Potiguar, província sedimentar que se estende entre Ceará e Rio Grande do Norte. A região abriga campos petrolíferos em produção há décadas. Segundo Bastos, o local corresponde a uma área de borda da bacia. Ainda assim, existem campos conhecidos nas proximidades.
O ponto onde o líquido apareceu fica a cerca de 11 quilômetros da área de exploração petrolífera mais próxima. Esse fator aumentou o interesse técnico na análise do caso.
Nos últimos dias, o episódio também gerou repercussão econômica na região. A família do agricultor afirma que recebeu propostas para vender a área. A propriedade foi herdada do pai de Sidrônio. Mesmo assim, o filho do agricultor, Saullo Santiago, disse que a família não pretende negociar a terra.
Enquanto aguarda o resultado das análises, a ANP orientou que os dois poços permaneçam isolados. A agência também recomendou que ninguém entre em contato com o líquido, pois ele pode apresentar toxicidade. Além disso, os técnicos orientaram a família a não realizar novas perfurações.
Mesmo que a substância seja confirmada como petróleo, a legislação brasileira determina que as riquezas do subsolo pertencem à União. Por isso, o proprietário da terra não pode explorar diretamente o recurso.
Caso os estudos indiquem viabilidade comercial, a área poderá integrar projetos de exploração petrolífera. Nesse cenário, o proprietário poderá receber compensação financeira de até 1% do valor da produção, conforme prevê a legislação.
Assim, o caso do poço com petróleo no Ceará segue sob investigação técnica. A análise determinará se o achado representa apenas uma pequena acumulação de hidrocarbonetos ou um novo ponto de interesse energético na borda da Bacia Potiguar.