OAB propõe regras de ética digital para ministros do STF após crise institucional

A proposta sobre ética digital ministros STF enviada pela OAB-SP ao Supremo estabelece regras de transparência patrimonial, comunicação institucional e conduta online após a crise provocada pelo Caso Banco Master.
Edson Fachin no STF durante debate sobre ética digital para ministros - Foto: Andressa Anholete/STF
Edson Fachin, presidente do STF, recebeu proposta da OAB-SP sobre ética digital para ministros da Corte. - Foto: Andressa Anholete/STF

A discussão sobre ética digital para ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) ganhou novo capítulo nesta segunda-feira (16/03), após a Ordem dos Advogados do Brasil em São Paulo (OAB-SP) encaminhar ao presidente do STF, Edson Fachin, uma proposta de Código de Ética Digital para a Corte. O documento surge no momento em que o tribunal enfrenta forte pressão institucional após investigações ligadas ao Banco Master.

A proposta estabelece novas regras de transparência, comunicação institucional e comportamento online para integrantes do Supremo. Além disso, o texto foi enviado na quinta-feira (12/03) e integra um conjunto mais amplo de propostas de reforma de conduta do Judiciário debatidas desde janeiro.

Ética digital ministros STF

Entre as medidas sugeridas, o código determina que magistrados mantenham declaração pública e atualizada de participações societárias. A exigência inclui também interesses econômicos de cônjuges e parentes de primeiro grau. Dessa forma, ministros teriam de se declarar impedidos de julgar processos relacionados a entidades nas quais possuam interesses financeiros.

O texto também impõe limites à comunicação digital. Pela proposta, ministros não poderiam manter contato com investigados ou partes de processos por meio de dispositivos pessoais ou contas privadas. As comunicações institucionais deveriam ocorrer apenas por canais oficiais, capazes de registrar e auditar as interações.

Outra frente da proposta envolve regras de conduta online. O documento recomenda que integrantes do Supremo se abstenham de comentar processos pendentes, divulgar informações internas do tribunal ou participar de interações digitais que possam comprometer sua imparcialidade. A proposta também restringe o uso de aplicativos de mensagens efêmeras, que não permitem registro permanente das conversas.

O debate sobre ética digital ministros STF ocorre em meio à crise institucional desencadeada pelo chamado Caso Banco Master. Investigações da Polícia Federal apontam proximidade entre o banqueiro Daniel Vorcaro, preso sob suspeita de liderar um esquema bilionário de fraudes financeiras, e os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, que negam irregularidades.

Mensagens extraídas do celular de Vorcaro indicariam suposta troca de mensagens com Moraes. Além disso, a advogada Viviane Barci, esposa do ministro, teria mantido contrato de R$ 129 milhões com o empresário. Já Toffoli aparece como sócio da empresa Maridt, que vendeu participação no Resort Tayayá ao Fundo Arleen, ligado à rede empresarial do Banco Master.

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Regras digitais para magistrados

O projeto elaborado pela Comissão de Estudos para a Reforma do Judiciário da OAB-SP reúne 16 artigos distribuídos em quatro capítulos. O estudo técnico foi coordenado pelo advogado Ronaldo Lemos, com participação de especialistas como Evane Beiguelman, Luiz Fernando Martins Castro e Celina Bottino.

De acordo com o presidente da OAB-SP, Leonardo Sica, a proposta pretende estimular o debate institucional diante do atual cenário.

“O país assiste aturdido a uma das maiores crises institucionais da República desde a redemocratização. Os fatos exigem apuração transparente. Ninguém pode estar acima da lei”, afirmou.

A pressão pública sobre a Corte também aparece nas pesquisas de opinião. Levantamento do Datafolha aponta 43% de desconfiança no STF, o maior índice já registrado. Já a Genial/Quaest indica que 49% dos brasileiros dizem não confiar na Corte, enquanto 72% avaliam que o tribunal tem poder excessivo e 66% defendem eleger senadores favoráveis ao impeachment de ministros.

Diante desse cenário, a proposta sobre ética digital ministros STF sinaliza uma tentativa de estabelecer parâmetros formais de transparência e governança no tribunal. Para especialistas em direito institucional, iniciativas desse tipo tendem a ganhar espaço quando crises políticas ampliam a cobrança pública por regras mais claras para autoridades do sistema judicial.

Foto de Jussier Lucas.

Jussier Lucas.

Jussier Lucas é jornalista formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e repórter do J1 News Brasil. Atua na cobertura de política, atualidades e temas de interesse público, com experiência em reportagem, comunicação pública e assessoria de imprensa na TV Universitária (TVU) e no TRE-RN.

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