A greve dos caminhoneiros passou a ser articulada por lideranças do setor após a avaliação de que a alta recente do diesel anulou o impacto das medidas anunciadas para conter os custos. A mobilização ganhou força na segunda-feira (16/03), em assembleia no Porto de Santos (SP), onde representantes deram aval para avançar com a organização do movimento.
Apesar de ainda não haver uma data definida, integrantes da categoria defendem o início das paralisações já nesta semana. Um comunicado formal deve ser enviado ao Palácio do Planalto nesta terça-feira (17/03), enquanto o governo tenta conter o avanço da mobilização por meio de negociações conduzidas pela Casa Civil, segundo a Folha de S. Paulo.
Greve dos caminhoneiros e falha no repasse do diesel
O estopim da crise está na sequência de decisões tomadas ao longo de março. Na última quinta-feira (12/03), a União zerou PIS/Cofins sobre o diesel e anunciou uma subvenção que poderia reduzir o preço em até R$ 0,64 por litro. No entanto, no dia seguinte, a Petrobras elevou o diesel A em R$ 0,38 por litro, em meio à alta do petróleo no mercado internacional impulsionada pela guerra no Oriente Médio.
Para a categoria, o reajuste neutralizou o efeito das medidas. Além disso, caminhoneiros afirmam que parte do benefício não chegou ao consumidor final, ficando retida na cadeia de distribuição.
“Em cada dois quilômetros você encontra um preço diferente”, disse Wallace Landim, presidente da Abrava.
Esse cenário ocorre em meio a uma escalada do combustível, com o diesel S-10 acumulando alta de 18,86% desde 28 de fevereiro, enquanto o diesel comum subiu mais de 22% no período. Relatos de preços a R$ 6,29 por litro em trajetos até Santos reforçam a percepção de descontrole.
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Pressão de custos no transporte rodoviário
A mobilização envolve tanto caminhoneiros autônomos quanto motoristas vinculados a empresas, ampliando o alcance potencial da paralisação. Estimativas do setor apontam cerca de 790 mil autônomos e 750 mil celetistas no país, o que eleva o risco de impacto logístico relevante.
Entre as principais demandas estão:
- Redução do ICMS pelos estados;
- Maior fiscalização sobre distribuidoras;
- Cumprimento do piso mínimo de frete (Lei 13.703/2018);
- Revisão de pedágios.
Para lideranças do setor, a falta de previsibilidade nos custos tornou a atividade financeiramente insustentável.
Segundo Everaldo Bastos, da Fetrabens, já há paralisações pontuais organizadas por sindicatos em diferentes regiões. A construção de uma pauta única entre entidades também está em andamento, com assembleias convocadas em diversos estados, conforme relatos ao portal Notícias Agrícolas.
Paralisação nacional de caminhoneiros
O governo federal monitora o avanço da greve dos caminhoneiros e tenta evitar um cenário de interrupção no abastecimento. Paralelamente, avalia intensificar a fiscalização sobre postos e distribuidoras, diante de indícios de que reduções de custo não estão sendo repassadas.
O quadro se agrava com o impasse federativo. Governadores resistem a reduzir o ICMS sobre o diesel, argumentando perdas fiscais acumuladas. Essa resistência limita o alcance das medidas federais e mantém o preço sob pressão.
A ameaça de paralisação também já mobiliza o agronegócio. Segundo Alê Delara, da Pine Agronegócio, a alta do combustível eleva custos e pode comprometer o escoamento da produção, especialmente em regiões já afetadas por preços elevados e falta de diesel, em entrevista ao Notícias Agrícolas.
No fim, a greve dos caminhoneiros expõe um problema recorrente: medidas fiscais isoladas não têm sido suficientes para conter a alta do combustível nem garantir previsibilidade ao setor. O episódio indica que, sem coordenação entre União, estados e cadeia de distribuição, o risco de novos choques logísticos permanece.