O Ceará perde um dos nomes mais associados ao avanço da ciência e da formação técnica no estado. Ariosto Holanda morreu neste sábado (21/03), aos 87 anos, em Fortaleza. Engenheiro e ex-deputado federal por cinco mandatos consecutivos, construiu ao longo de décadas uma atuação voltada à ciência e à tecnologia, tanto na vida pública quanto na atividade acadêmica.
O velório ocorre a partir das 10h, na Ternura, na Aldeota, com sepultamento previsto para 16h no Parque da Paz. A morte encerra a trajetória de um dos quadros técnicos que combinaram formação em engenharia com presença contínua na política estadual e nacional.
Ariosto Holanda trajetória e atuação no Ceará
Formado em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Ceará (UFC), Ariosto Holanda iniciou a carreira na COELCE e na Petrobras, antes de migrar para o setor público. Também atuou como professor da UFC e da Universidade de Fortaleza (Unifor), contribuindo para a formação de profissionais da engenharia.
Na gestão pública, assumiu a Secretaria da Indústria e Comércio do Ceará entre 1987 e 1989, no primeiro governo de Tasso Jereissati. Posteriormente, comandou a Secretaria de Ciência e Tecnologia em dois períodos — de 1995 a 1998 e de 1999 a 2002 — participando de todos os mandatos do governo tucano no estado.
A entrada no Congresso ocorreu em 1990, quando foi eleito deputado federal pelo PSB, na 22ª posição entre os eleitos. Em 1994, já filiado ao PSDB, ficou como suplente; posteriormente, assumiu o mandato em 18 de agosto de 1995, após a morte do ex-deputado Jackson Pereira, aos 48 anos. Foi reeleito em 1998 e 2002 e, com isso, manteve presença contínua no Legislativo.
A repercussão da morte mobilizou representantes da indústria, do comércio e do Legislativo.
“Ariosto foi um dos maiores educadores da história do Ceará. Um líder que utilizou a educação como base de atuação pública. O Ceará, o Brasil e a indústria cearense perdem uma referência”, afirmou Ricardo Cavalcante, presidente do Sistema FIEC.
“Ariosto Holanda foi um homem público sério, com atuação marcada por ideias e compromisso com a educação técnica e a inovação. Ele merecia estar na Câmara Federal. Quando assumiu o mandato após a morte do meu pai, Jackson Pereira, nossa família ficou tranquila por saber que a vaga seria ocupada por um nome qualificado”, comentou Jackson Pereira Jr., CEO do Sistema BNTI de Comunicação.
“Ariosto Holanda foi um homem à frente do seu tempo. Defendeu a educação técnica como ferramenta de transformação e inclusão social para jovens e teve atuação relevante no Ceará e no Brasil”, destacou Romeu Aldigueri, presidente da Assembleia Legislativa do Ceará.
“Recebi com tristeza a notícia da morte do meu amigo Ariosto Holanda. Foi um homem público exemplar e um técnico na política, uma qualidade rara. Defendia uma atuação baseada em conhecimento, responsabilidade e resultados concretos para a população. O Brasil perde um quadro qualificado, e eu perco um amigo”, disse o deputado federal Luiz Carlos Hauly (Podemos-PR).
“Ariosto Holanda teve uma atuação consistente na defesa da educação técnica e do desenvolvimento industrial. Era um homem preparado, com visão de longo prazo, que contribuiu para aproximar conhecimento e produção no Ceará”, afirmou Beto Studart, presidente do Grupo BSPAR.
“Grande homem público, um político sério, honesto e humano que tive a oportunidade de conhecer”, disse João Porto Guimarães, presidente da Associação Comercial do Ceará.
Carreira política
Nos anos seguintes, Ariosto Holanda voltou ao PSB e foi novamente eleito deputado federal em 2006 e 2010, com apoio do grupo liderado por Cid e Ciro Gomes. Em 2014, disputou pelo PROS e ficou como 2º suplente. Posteriormente, assumiu durante o mandato.
Sua trajetória partidária incluiu ainda a filiação ao PDT em 2016, após deixar o PROS. Nesse contexto, em 17 de abril daquele ano, votou contra a abertura do processo de impeachment da então presidente Dilma Rousseff. Com isso, registrou uma das decisões mais relevantes de sua atuação recente.
Legado de Ariosto Holanda na ciência e formação técnica
Ao longo da carreira, acumulou distinções concedidas por instituições industriais, científicas e acadêmicas. Entre elas estão a Medalha do Mérito Industrial da FIEC (1984), a Medalha do Mérito Naval (1994), a Medalha Nacional do Mérito Científico (1997), a Ordem Nacional do Mérito Educativo (2002) e a Medalha do Conhecimento do Governo Federal (2007).
Esse conjunto de homenagens levou seu nome a ser associado a premiações na área de inovação. Um exemplo é a Comenda Ariosto Holanda de Ciência, Tecnologia e Inovação, vinculada ao Instituto Iracema Digital.
Além da atuação política, Ariosto Holanda manteve relação com o sistema de formação técnica. Seu filho, Paulo André Holanda, atua como diretor regional do SENAI Ceará e superintendente do SESI Ceará. Antes disso, presidiu a Companhia Docas do Ceará entre 2009 e 2014.
A presença contínua entre 1990 e 2014 indica a manutenção de um perfil técnico dentro da política, com foco em política industrial, educação técnica e inovação no Ceará. Nesse contexto, esse padrão sugere uma fase em que agendas ligadas ao desenvolvimento produtivo tinham interlocução direta no Congresso.
O professor Ariosto Holanda representa uma geração de gestores que transitaram entre governo, academia e setor produtivo. Com isso, a ausência desse perfil tende a reduzir a articulação entre essas áreas, em um cenário em que o debate público se concentra em temas fiscais e sociais.