No avanço das investigações sobre fraudes em benefícios previdenciários, a delação de Camisotti entrou em negociação na sexta-feira (20/03) com a Polícia Federal, em um caso que envolve suspeitas de desvio de recursos de aposentadorias e pensões do INSS. A PF mantém o empresário preso desde setembro de 2025 e o aponta como operador e possível beneficiário de um esquema que movimentou valores elevados dentro da autarquia.
Além disso, a apuração já não se limita ao núcleo financeiro. Ela alcança conexões empresariais, familiares e políticas. Por isso, a possível colaboração surge como instrumento para mapear a circulação dos recursos, identificar operadores e esclarecer como a estrutura funcionava.
Delação de Camisotti e os valores sob investigação
O foco da investigação recai sobre os fluxos financeiros. Entre 2023 e 2025, o INSS repassou quase R$ 400 milhões à Ambec, associação sob suspeita de integrar o esquema. Parte desses valores seguiu para empresas ligadas ao empresário.
Ao mesmo tempo, relatórios do Coaf mostram que Camisotti realizou R$ 7,2 milhões em saques em dinheiro, distribuídos em 11 operações. No total, ocorreram 17 retiradas entre 2018 e 2025, incluindo uma de R$ 3 milhões. Também ocorreu um saque de R$ 285 mil, embora o relatório não identifique o responsável.
O Coaf classificou essas movimentações como incompatíveis com a capacidade econômica declarada. Já a Polícia Federal associou os registros a práticas de dilapidação patrimonial.
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Colaboração premiada no caso do INSS
No entorno familiar, os dados ampliam o alcance da investigação. A filha do empresário movimentou R$ 5 milhões entre abril de 2024 e maio de 2025 e recebeu R$ 2,2 milhões do pai em novembro de 2023. Enquanto isso, o filho permaneceu em silêncio 86 vezes durante depoimento na CPI.
Diante desse conjunto, investigadores avaliam que a fragmentação de saques e transferências indica tentativa de dispersar recursos e reduzir rastreabilidade. Esse padrão aparece com frequência em estruturas de lavagem de dinheiro.
Paralelamente, o caso avançou no Supremo Tribunal Federal (STF). O ministro André Mendonça determinou novas prisões e impôs tornozeleira eletrônica à deputada Gorete Pereira (MDB-CE), que nega envolvimento.
Nesse cenário, a delação de Camisotti pode alterar o rumo da investigação. Caso o STF homologue o acordo, a colaboração tende a detalhar a engrenagem financeira do esquema, conectar empresas e entidades associativas e indicar eventuais vínculos com agentes públicos. Assim, o caso passa a pressionar mudanças nos mecanismos de controle sobre descontos em benefícios do INSS e amplia o alcance das responsabilizações.