Suspeitas contra ex-diretor do BC ampliam crise no caso Master

Ex-diretor do BC é investigado por suspeitas no caso Banco Master, envolvendo R$ 11,5 bilhões e levantando dúvidas sobre a supervisão bancária no Brasil.
Ex-diretor do BC Paulo Sérgio Neves de Souza durante fala pública em Brasília
Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-diretor do Banco Central, é alvo de apuração sobre sua atuação no caso Banco Master. Foto: Beto Nociti/Banco Central do Brasil

O caso do ex-diretor do Banco Central (BC), Paulo Sérgio Neves de Souza, ganhou nova dimensão ao atingir a credibilidade da supervisão bancária brasileira. Ele é investigado sob suspeita de ter apresentado informações incorretas à diretoria do BC sobre a situação do Banco Master, o que teria influenciado avaliações internas da instituição.

Segundo apuração da Folha de S.Paulo, as suspeitas também incluem a possibilidade de atuação informal junto ao controlador do banco, Daniel Vorcaro, em circunstâncias ainda sob apuração. O caso envolve operações bilionárias, divergências internas no Banco Central e questionamentos sobre a resposta do regulador.

Bilhões sob investigação e sinais de alerta

O BC solicitou ao Ministério Público Federal (MPF) o congelamento de R$ 11,5 bilhões em fundos administrados pela Reag e associados a operações sob investigação. As apurações também envolvem 36 empresas, sendo 23 ligadas aos setores imobiliário, hotelaria e construção.

O BC identificou as irregularidades em setembro de 2024, antes de liquidar o Banco Master em novembro de 2025. Segundo a apuração, o modelo de operação do banco teria explorado brechas regulatórias. As estruturas permitiam a conversão de dívidas em participação societária, o adiamento do reconhecimento de inadimplência e maior dificuldade para a atuação da supervisão.

Mesmo diante desses sinais, avaliações consideradas positivas teriam sido levadas à diretoria pelo então ex-chefe da fiscalização do Banco Central.

Divergências internas e pressão no BC

Segundo relatos de interlocutores ouvidos pela Folha de S.Paulo, houve divergências com o presidente da instituição, Gabriel Galípolo, além de reuniões marcadas por discussões sobre a condução do caso. Internamente, também surgiram avaliações de que a resposta pode não ter ocorrido com a velocidade necessária.

Outro ponto sob análise envolve um parecer favorável à tentativa de aquisição do Banco Master pelo BRB (Banco de Brasília). De acordo com a reportagem, o documento não respondeu a questionamentos técnicos de outras áreas e divergiu de avaliações internas. A operação foi posteriormente rejeitada.

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Investigações sobre ex-diretor do BC e possíveis desdobramentos

A Controladoria-Geral da União (CGU) analisa os resultados de uma sindicância interna no Banco Central, enquanto um inquérito preliminar avalia a eventual abertura de um processo administrativo disciplinar (PAD).

Souza teve os acessos aos sistemas do BC desligados em janeiro de 2025 e foi afastado por decisão judicial, conforme informações ligadas ao caso. Dependendo das conclusões, ele poderá ser alvo de sanções administrativas.

O que está em jogo?

As suspeitas envolvendo um ex-dirigente da área responsável pela fiscalização bancária levantam questionamentos sobre a eficácia dos mecanismos internos do Banco Central e sua capacidade de resposta diante de estruturas financeiras complexas.

Na prática, o caso pode gerar pressão por mudanças regulatórias, revisão de procedimentos internos e impacto na confiança do mercado financeiro.

Quando o questionamento atinge não apenas uma instituição supervisionada, mas o próprio órgão responsável pela fiscalização, o efeito tende a ser mais amplo. O desfecho das investigações deve indicar se houve falhas pontuais ou problemas mais estruturais.

Foto de Ramylle Freitas

Ramylle Freitas

Ramylle Freitas é jornalista formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Atua na cobertura de política e geopolítica no J1 News Brasil, com produção de conteúdos analíticos voltados ao cenário institucional, relações internacionais e dinâmicas de poder. Também colabora com a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), reforçando o compromisso com apuração rigorosa e checagem de fatos.

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