Nesta quinta-feira (26/03), a prévia da inflação oficial do país mostrou pressão acima do esperado: o IPCA-15 avançou 0,44% em março, superando a projeção de 0,29% do mercado, segundo o IBGE. Ainda assim, apesar da surpresa no mês, o índice acumulado em 12 meses recuou para 3,90%, abaixo dos 4,10% anteriores e dentro do intervalo da meta de inflação, cujo teto é 4,5%.
Nesse contexto, o dado revela uma dinâmica mista: enquanto a inflação anual perde intensidade, por outro lado, o resultado mensal aponta aceleração em itens de consumo imediato. Além disso, o desvio em relação às estimativas, segundo analistas consultados pelo Valor Data, indica dificuldade de previsão no curto prazo.
Alimentos e serviços lideram a alta do IPCA-15
A principal pressão veio da alimentação, que registrou alta de 0,88%. Em especial, a comida consumida em casa avançou 1,10%, após alta de apenas 0,09% em fevereiro.
Entre os itens com maior impacto, destacam-se:
- Açaí: 29,95%
- Feijão-carioca: 19,69%
- Ovo de galinha: 7,54%
- Leite longa vida: 4,46%
- Carnes: 1,45%
Por outro lado, alguns produtos recuaram, como:
- Café moído: -1,76%
- Frutas: -1,31%
Mesmo assim, essas quedas não compensaram a alta generalizada. Ao mesmo tempo, a alimentação fora do domicílio desacelerou para 0,35%, com refeições subindo 0,31%, abaixo do mês anterior.
Dessa forma, o comportamento do grupo reforça a pressão direta sobre o orçamento das famílias, sobretudo nas faixas de renda mais baixas.
Serviços ganham peso na inflação recente
Além da alimentação, os serviços também contribuíram para o resultado. Nesse sentido, o grupo de despesas pessoais avançou 0,82%, puxado principalmente por:
- Serviços bancários: 2,12%
- Empregado doméstico: 0,59%
De maneira semelhante, na saúde, os preços subiram 0,36%, com destaque para:
- Planos de saúde: 0,49%
- Higiene pessoal: 0,38%
Já no caso da habitação, houve avanço de 0,24%, influenciado pela energia elétrica (0,29%). Isso ocorreu após reajustes de até 15,1% e 14,66% no Rio de Janeiro, em vigor desde 15/03.
No grupo de transportes, por sua vez, a alta foi de 0,21%, com impacto relevante de:
- Passagens aéreas: 5,94%
- Ônibus intermunicipal: 1,29%
Esse resultado inclui reajustes no Rio de Janeiro, entre 11,69% e 12,61%, desde 15/02, e, além disso, em Curitiba (7,27%, desde 16/02).
Em contrapartida, os combustíveis apresentaram leve queda. A gasolina recuou -0,08%, enquanto o etanol caiu -0,61% e o gás veicular -2,27%. Já o diesel, diferentemente, subiu 3,77%.
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Difusão mais ampla e núcleos em queda redesenham cenário
Ao mesmo tempo, o IPCA-15 mostrou maior disseminação dos aumentos. O índice de difusão subiu para 63,2%, ante 62,7% em fevereiro, segundo cálculos do Valor Data.
Por outro lado, ao excluir alimentos, o indicador caiu de 67,8% para 60%, indicando que parte da pressão está concentrada em itens mais voláteis. Ainda assim, a média dos núcleos monitorados pelo Banco Central recuou para 0,35%, de 0,66%, conforme a 4intelligence.
No trimestre, o IPCA-E acumulou 1,49%, abaixo dos 1,99% registrados no mesmo período de 2025. Nesse recorte, educação liderou com 5,3%, seguida por saúde (1,85%) e transportes (1,81%).
Enquanto isso, na outra ponta, habitação ficou praticamente estável (0,04%). Além disso, vestuário (0,33%) e artigos de residência (1,01%) registraram variações mais moderadas.
Diante desse conjunto de dados, o IPCA-15 indica uma mudança de composição: a pressão deixa de estar concentrada em poucos grupos e passa a se distribuir entre alimentos e serviços.