Estado de greve na PF revela desgaste em uma das instituições mais confiáveis do país

O estado de greve na PF acende um alerta para possíveis impactos na segurança pública no Brasil. A mobilização da Polícia Federal pode levar à paralisação de investigações, operações e atendimentos já nos próximos dias.
Agente da Polícia Federal durante operação em meio a estado de greve da PF
Estado de greve na PF levanta preocupação sobre impacto em investigações e serviços no país. Foto: Divulgação / Polícia Federal

A Polícia Federal (PF) pode interromper investigações, operações e atendimentos já na próxima semana, após a aprovação do estado de greve pela Federação Nacional dos Policiais Federais (Fenapef), anunciada na quinta-feira (26/03). O movimento, que antecede uma paralisação formal, não apenas coloca serviços essenciais em risco, como também escancara o nível de desgaste interno em uma das instituições mais respeitadas do país.

A decisão foi tomada após três dias de assembleia com representantes dos 27 sindicatos da categoria. Pela primeira vez em anos, o movimento reúne diferentes carreiras da corporação, agentes, escrivães, delegados, peritos e servidores administrativos, em torno de uma mesma pauta: valorização profissional e reajuste salarial.

Estado de greve na PF: que pode parar na prática?

Na prática, o estado de greve abre caminho para uma redução significativa das atividades. Segundo a coluna Painel, da Folha de S. Paulo, policiais já admitem a possibilidade de interromper investigações em andamento, adiar operações e limitar serviços ao público. O impacto imediato recai sobre o funcionamento da segurança pública e, principalmente, sobre o combate ao crime organizado.

A preocupação cresce porque a mobilização ocorre justamente em uma instituição que lidera os índices de confiança da população. Levantamento recente da AtlasIntel, em parceria com o jornal O Estado de S. Paulo, aponta a PF como uma das mais bem avaliadas entre os brasileiros. Ainda assim, segundo representantes da categoria, esse reconhecimento não se refletiu em medidas concretas de valorização.

Por que a PF chegou a esse ponto

Internamente, o discurso é de insatisfação acumulada. Policiais relatam que o atual patamar salarial é considerado defasado diante das responsabilidades da função. Além disso, a categoria aponta aumento de atribuições nos últimos anos, como o registro de CACs (colecionadores, atiradores e caçadores), atividade que antes era de responsabilidade do Exército.

Outro ponto de tensão é a falta de avanço em promessas feitas pelo governo. A criação do Funcoc (Fundo de Combate às Organizações Criminosas), anunciada no ano passado pelo então ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, ainda não saiu do papel. Para os policiais, a medida, além de insuficiente, não resolve os problemas estruturais enfrentados pela corporação.

Apesar da pressão crescente, até o momento não houve sinalização considerada satisfatória por parte do Palácio do Planalto. Segundo o vice-presidente da Fenapef, Marcos Avelino, o governo abriu um canal de diálogo após a aprovação do estado de greve, mas ainda não apresentou proposta concreta.

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A categoria agora se prepara para uma nova rodada de assembleias na próxima semana, que deve definir os próximos passos do movimento. Entre as possibilidades estão a intensificação da paralisação e a realização de atos públicos para ampliar a pressão sobre o governo.

Nos bastidores, a avaliação é que a mobilização pode expor fragilidades na atuação federal no combate ao crime organizado. Mais do que uma disputa salarial, o avanço do movimento sinaliza um desgaste institucional que começa a sair do campo interno e ganhar impacto direto sobre a sociedade.

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Ramylle Freitas

Ramylle Freitas é jornalista formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Atua na cobertura de política e geopolítica no J1 News Brasil, com produção de conteúdos analíticos voltados ao cenário institucional, relações internacionais e dinâmicas de poder. Também colabora com a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), reforçando o compromisso com apuração rigorosa e checagem de fatos.

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