Associação denuncia campanha eleitoral em templos religiosos e leva casos à Justiça

A campanha eleitoral em templos religiosos passou a ser alvo de denúncias no Brasil após o lançamento de uma iniciativa que monitora o uso de espaços religiosos para fins políticos. A associação responsável já levou casos à Justiça Eleitoral, alegando propaganda irregular e abuso de poder.
Líderes religiosos e políticos reunidos em evento relacionado à campanha eleitoral em templos religiosos
Lideranças religiosas e políticas participam de encontro em meio ao debate sobre campanha eleitoral em templos religiosos no Brasil. Foto: Reprodução/Redes Sociais

Em ano de eleições, a linha que separa religião e política retornou ao centro do debate eleitoral no Brasil após o lançamento da campanha “Eleições Laicas”, criada pela Associação Movimento Brasil Laico. A iniciativa busca monitorar e denunciar o uso de templos religiosos para fins eleitorais, prática proibida pela legislação.

A associação afirma que a iniciativa surge diante do aumento de episódios em que líderes usam cultos religiosos como espaço para promover candidatos, prática que, segundo o grupo, fere o princípio da laicidade do Estado e pode comprometer a igualdade na disputa eleitoral. A campanha se baseia na Lei nº 9.504/97, que regula as eleições no país e proíbe a veiculação de propaganda eleitoral em bens de uso comum, como templos religiosos.

De acordo com a diretoria da associação, a medida busca impedir o uso de púlpitos como palanques e a transformação de igrejas em “currais eleitorais” durante períodos eleitorais.

Casos de campanha eleitoral em templos religiosos já foram levados ao Ministério Público

O lançamento da campanha ocorre junto com uma série de denúncias encaminhadas à Justiça Eleitoral. Uma das principais envolve um culto realizado no dia 8 de março, na Assembleia de Deus Brás, em São Paulo.

A representação aponta que o evento foi utilizado como espaço de promoção política do deputado federal Eduardo da Fonte. Em vídeo que circula nas redes sociais, o pastor Eliseu Virgínio apresenta o parlamentar como “nosso futuro senador”, enquanto o bispo Samuel Ferreira responde sugerindo apoio à campanha.

A entidade sustenta que o episódio configura propaganda eleitoral antecipada em templo religioso, prática que a legislação proíbe.

Com base nisso, a associação solicitou ao Ministério Público Federal a aplicação de sanções como:

  • Multa aos envolvidos;
  • Inelegibilidade por até 8 anos;
  • Cassação de eventual registro ou diploma.

As acusações ainda serão analisadas pelas autoridades competentes.

Eventos religiosos de grande escala ampliam debate sobre limites

A discussão sobre o uso de espaços religiosos em contextos políticos ocorre em paralelo à ampliação de grandes mobilizações promovidas por igrejas em todo o país. Um exemplo recente é o evento “Família ao Pé da Cruz”, organizado pela Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), fundada pelo bispo Edir Macedo, que prevê a realização simultânea de celebrações em nove estádios na Sexta-feira da Paixão (03/04).

Entre os locais reservados estão o Maracanã, no Rio de Janeiro, a Neo Química Arena e o Pacaembu, em São Paulo, além de arenas em Brasília, Salvador, Porto Alegre, Belo Horizonte, Belém e Teresina. A mobilização envolve uma operação logística de grande porte e custos elevados com aluguel, produção e estrutura.

Dados de mercado ajudam a dimensionar esse tipo de evento. Em dezembro, a Igreja Batista Lagoinha pagou R$ 2,9 milhões para utilizar a Neo Química Arena, enquanto o Pacaembu cobra cerca de R$ 1,25 milhão para eventos no gramado. Em alguns casos, iniciativas desse porte também contam com apoio de governos locais. A Prefeitura de São Paulo destinou R$ 4 milhões para um evento da Lagoinha, e o governo do Rio de Janeiro anunciou R$ 5 milhões em patrocínio para a estrutura no Maracanã.

Esses encontros ocorrem enquanto o Republicanos, partido ligado à Igreja Universal e presidido pelo deputado federal Marcos Pereira, define seu posicionamento para as próximas eleições.

Eventos religiosos de grande porte não configuram, por si só, irregularidade eleitoral. Ainda assim, o contexto amplia o debate sobre os limites entre mobilização religiosa e influência política em períodos próximos às eleições.

Outras denúncias ampliam o alcance da campanha

A associação afirma já ter protocolado outras representações em 2026. Entre os citados estão o pastor Silas Malafaia, a Assembleia de Deus Vitória em Cristo (ADVEC) e o deputado Douglas Ruas. Outra denúncia envolve a deputada estadual Mical Damasceno e a Convenção Estadual da Assembleia de Deus do Maranhão (CEADEMA).

Segundo a entidade, os casos seguem um padrão semelhante: a utilização de cultos religiosos como espaço para manifestações políticas e apoio a candidaturas.

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Fiscalização terá canal aberto ao público

A campanha “Eleições Laicas” terá caráter contínuo durante anos eleitorais e prevê a participação direta da sociedade. Entre as ações anunciadas estão:

  • Criação de canal de denúncias online;
  • Triagem jurídica das informações recebidas;
  • Envio dos casos à Justiça Eleitoral;
  • Disponibilização de modelos para formalização de denúncias.

O presidente da associação, Leandro Patrício, afirmou em vídeo divulgado nas redes sociais que o objetivo é ampliar a fiscalização e coibir o que classificou como atuação de lideranças religiosas como cabos eleitorais.

Foto de Ramylle Freitas

Ramylle Freitas

Ramylle Freitas é jornalista formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Atua na cobertura de política e geopolítica no J1 News Brasil, com produção de conteúdos analíticos voltados ao cenário institucional, relações internacionais e dinâmicas de poder. Também colabora com a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), reforçando o compromisso com apuração rigorosa e checagem de fatos.

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