Ibaneis Rocha deixa o governo do Distrito Federal (DF) no pior momento da gestão e concorre ao Senado sob o peso da crise do Banco de Brasília (BRB) e de um racha político que fragmenta sua base. A decisão, formalizada no sábado (28/03), ocorre a 190 dias das eleições e reposiciona o cenário eleitoral na capital.
A desincompatibilização, exigida por lei seis meses antes do pleito, encerra mais de sete anos no comando do governo do DF. A partir desta segunda-feira (30/03), a vice-governadora Celina Leão assume o governo em meio a um cenário de transição administrativa e tensão eleitoral crescente.
Fragilidade política marca saída de Ibaneis do Governo para concorrer ao Senado
Eleito em 2018 e reeleito em 2022, Ibaneis construiu protagonismo ao se tornar o primeiro governador reeleito do DF em duas décadas. Ainda assim, sua trajetória acumulou episódios de desgaste, incluindo o afastamento por 64 dias em 2023 por decisão do ministro Alexandre de Moraes.
Agora, ao deixar o cargo para disputar o Senado, o ex-governador tenta transformar seu legado administrativo em capital eleitoral. O movimento ocorre em um ambiente mais adverso do que o previsto meses atrás.
O principal ponto de pressão vem do próprio campo político. O PL rompeu com a base do governo e lançou duas candidaturas ao Senado, Michelle Bolsonaro e Bia Kicis, abrindo uma disputa direta dentro do mesmo espectro ideológico e fragmentando votos que antes poderiam convergir.
Ibaneis afirma que ainda buscará unidade, mas admite seguir na disputa mesmo sem consenso. Nos bastidores, aliados reconhecem que a viabilidade da candidatura depende de uma articulação mais ampla, possivelmente com intervenção da direção nacional do partido.
Sinais de isolamento também começam a aparecer. O deputado distrital Chico Vigilante classificou a situação como grave, enquanto o senador Izalci Lucas apontou desgaste crescente no cenário político local.
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Crise do BRB pressiona cenário eleitoral
Se o ambiente político já impõe obstáculos, o cenário econômico adiciona um fator ainda mais sensível. A saída de Ibaneis ocorre no momento em que o BRB, banco controlado pelo Governo do DF, enfrenta dificuldades após operações que resultaram em perdas bilionárias e levantaram dúvidas sobre sua situação patrimonial.
O banco ainda trabalha para divulgar seus resultados de 2025 dentro do prazo, previsto para 31 de março, enquanto busca alternativas para recompor o equilíbrio financeiro. Como principal acionista, o governo do DF permanece diretamente exposto aos desdobramentos.
Na prática, a crise do BRB desloca o debate eleitoral. O tema deixa de ser técnico e passa a influenciar a percepção de gestão, responsabilidade fiscal e capacidade administrativa, fatores decisivos para o eleitor.
Paralelamente, a estrutura de governo também passa por mudanças. Secretários de áreas estratégicas deixam os cargos para disputar eleições, afetando a continuidade administrativa em setores como Casa Civil, Educação, Governo, Justiça e Turismo.
A reorganização atinge ainda administrações regionais relevantes, indicando uma tentativa de reconfiguração da base política em meio ao novo cenário.
Precedente histórico amplia incerteza
O momento atual reacende um precedente importante na política do Distrito Federal. Em 2006, Joaquim Roriz deixou o governo para disputar o Senado e não conseguiu transferir força eleitoral para sua sucessora, resultando em derrota e instabilidade política nos anos seguintes. A comparação não é automática, mas reforça o risco envolvido na estratégia.
Com a saída do governo em um ambiente de crise financeira e fragmentação política, Ibaneis entra na disputa ao Senado em condições mais instáveis do que as projetadas inicialmente. O resultado passa a depender menos do legado acumulado e mais da capacidade de recompor alianças e conter o impacto das crises no debate eleitoral.
No cenário atual, a disputa no Distrito Federal se torna mais aberta e imprevisível, com múltiplos candidatos no mesmo campo político e fatores econômicos influenciando diretamente a decisão do eleitor.