A CPI do Crime Organizado aprovou, nesta terça-feira (31/03), a convocação dos ex-governadores Ibaneis Rocha (MDB) e Cláudio Castro (PL) e, ao mesmo tempo, direcionou a investigação para fluxos financeiros que envolvem ao menos R$ 190 milhões sob análise. A decisão ocorre após ambos deixarem os cargos, o que permite à comissão exigir presença obrigatória nos depoimentos.
Além disso, o colegiado ampliou o escopo da apuração e passou a integrar política, sistema bancário e operações logísticas no mesmo eixo investigativo. O relator, senador Alessandro Vieira (MDB-SE), conduz a linha que busca identificar conexões entre decisões públicas e circulação de recursos suspeitos.
CPI do Crime Organizado amplia foco sobre sistema financeiro
No caso de Ibaneis Rocha, a CPI do Crime Organizado pretende esclarecer relações comerciais entre seu escritório de advocacia e entidades investigadas. Dados indicam que o escritório recebeu R$ 85,5 milhões de fundos ligados ao Banco Master e à gestora Reag. Além disso, recebeu R$ 25 milhões da J&F após decisões administrativas envolvendo o Banco de Brasília (BRB).
Segundo o relator, há indícios de que decisões administrativas possam ter influenciado a atuação de grupos investigados. Ainda assim, Ibaneis afirmou que não foi informado oficialmente e declarou não compreender o fundamento da convocação.
Em paralelo, a comissão convocou Renato Dias de Brito Gomes, ex-diretor do Banco Central, e Yan Felix Hirano, apontado como operador financeiro. Com isso, o inquérito parlamentar sobre crime organizado passa a mirar diretamente o sistema financeiro, incluindo bancos, fundos e estruturas de investimento.
Estratégia da comissão após renúncia dos governadores
No caso de Cláudio Castro, a convocação ocorre em meio à análise de falhas institucionais no combate à lavagem de dinheiro no Rio de Janeiro. Segundo Alessandro Vieira, o estado reúne dinâmicas sofisticadas de atuação criminosa, o que justifica a oitiva.
Ao mesmo tempo, a decisão reflete uma estratégia da comissão. Existe entendimento no Supremo Tribunal Federal (STF) de que governadores não podem ser obrigados a depor. No entanto, com a renúncia recente de Castro e Ibaneis — ambos candidatos ao Senado —, a CPI passou a ter base para exigir os depoimentos.
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Comissão investiga fluxo financeiro e uso de aeronaves
Outro eixo da CPI do Crime Organizado envolve a análise de movimentações financeiras e logística associada a investigados. Nesse sentido, a comissão solicitou à Força Aérea Brasileira registros de voos de quatro aeronaves (prefixos PSMGG, PSFST, PRPSE e PPCFF) utilizadas no último ano.
Segundo o relator, há suspeita de que esses aviões tenham transportado pessoas ligadas a uma organização criminosa com participação de empresários. Além disso, a CPI pediu informações ao BNDES sobre a concessão da rodovia BR-163, ampliando o escopo para contratos públicos.
Por fim, o colegiado analisa pedidos de quebra de sigilos bancário e fiscal. Entre os valores sob investigação, aparecem R$ 190 milhões em transferências de um fundo ligado à Reag para um operador associado ao Banco Master, reforçando a dimensão financeira do caso.
Diante desse cenário, a CPI do Crime Organizado consolida uma linha de apuração que conecta decisões políticas, sistema financeiro e estruturas operacionais. Assim, o avanço indica uma investigação mais ampla sobre como recursos circulam entre agentes públicos, instituições bancárias e redes sob suspeita no país.