PM preso por feminicídio continua recebendo salário público após a Polícia Militar de São Paulo colocar o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto na reserva. Mesmo detido pela morte da esposa, ele mantém remuneração paga pelo Estado, o que levanta questionamentos sobre as regras da carreira militar e o uso de dinheiro público.
A medida saiu nesta quinta-feira (02/04) no Diário Oficial e garante ao oficial o direito à aposentadoria proporcional por tempo de serviço. Na prática, isso significa que ele deve receber cerca de R$ 21 mil por mês. Além disso, o valor supera o salário da própria vítima, a policial militar Gisele Alves Santana, que ganhava cerca de R$ 7,2 mil.
Diante desse cenário, o caso chama atenção porque um PM preso continua recebendo normalmente, mesmo diante de uma acusação grave como feminicídio. Por isso, surge uma dúvida central: como isso é possível dentro da lei?
Por que um PM preso continua recebendo
A resposta está nas regras da carreira militar. Nesse modelo, o policial adquire o direito à aposentadoria ao longo do tempo de serviço, e esse benefício não depende do tipo de crime investigado.
Na prática, o Estado pode agir em duas frentes. De um lado, a Justiça analisa o crime e pode condenar o policial. Por outro, a própria corporação pode expulsá-lo.
Ainda assim, essas decisões não interrompem automaticamente o pagamento. Isso ocorre porque a lei trata a aposentadoria como um direito já adquirido.
Ou seja, a legislação permite que um PM preso mantenha a remuneração mesmo após perder o cargo ou responder por um crime grave.
O que torna o caso mais grave
Além da questão financeira, o caso ganha peso pelas evidências reunidas na investigação. Inicialmente, as autoridades registraram a ocorrência como suicídio. No entanto, as perícias mudaram esse entendimento.
Os laudos indicam que a dinâmica do disparo não corresponde a um suicídio. Além disso, peritos identificaram que alguém desbloqueou o celular da vítima após o tiro e apagou mensagens.
As conversas recuperadas mostram que Gisele discutia a separação e aceitava o divórcio. Portanto, essa versão contradiz o relato inicial apresentado pelo marido.
Ao mesmo tempo, colegas de trabalho relataram episódios de agressividade e comportamento controlador do oficial.
Com base nesses elementos, o Ministério Público sustenta que houve execução seguida de tentativa de simulação de suicídio. Por isso, a acusação também inclui fraude processual.
Dinheiro público e reação social
O ponto que mais repercute é direto: o pagamento continua. Na prática, o caso mostra que um PM preso pode seguir recebendo salário mesmo após a prisão. Enquanto isso, o processo pode resultar em uma pena de até 40 anos.
Esse descompasso aumenta a sensação de injustiça. De um lado, uma policial de 32 anos, morta dentro de casa. De outro, o acusado mantém uma renda elevada paga pelo Estado. Assim, o caso amplia o debate sobre privilégios dentro de estruturas institucionais e sobre os limites da legislação atual.
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O que pode acontecer agora
Atualmente, o tenente-coronel está preso no Presídio Militar Romão Gomes, na zona norte de São Paulo. Além disso, o Superior Tribunal de Justiça já negou o pedido de liberdade da defesa.
Como o caso envolve crime doloso contra a vida, o processo pode seguir para o Tribunal do Júri.
Paralelamente, a Polícia Militar analisa a exclusão do oficial. Ainda assim, mesmo que isso ocorra, a legislação permite a continuidade do pagamento.
Dessa forma, o caso reacende o debate sobre até que ponto um PM preso pode continuar recebendo salário público, mesmo diante de acusações graves.