BC impõe sigilo de 8 anos no caso Banco Master e decisão entra na mira do TCU

O Banco Central classificou como sigilosos os documentos da liquidação do Banco Master até 2033, alegando risco à estabilidade financeira. A decisão entrou na mira do TCU, que cobra explicações sobre o alcance da medida.
Fachada do Banco Central do Brasil relacionada ao sigilo de documentos do caso Banco Master
Banco Central mantém sob sigilo documentos da liquidação do Banco Master até 2033. Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

O Banco Central (BC) decidiu manter sob sigilo, até novembro de 2033, os documentos relacionados à liquidação extrajudicial do Banco Master. Na prática, isso impede que o público tenha acesso aos detalhes sobre a quebra da instituição por quase uma década. A medida, formalizada pelo presidente da autarquia, Gabriel Galípolo, em novembro de 2025, já provoca questionamentos dentro do Tribunal de Contas da União.

A informação foi confirmada em resposta a um pedido feito via Lei de Acesso à Informação. Segundo o BC, a divulgação imediata dos documentos poderia comprometer a estabilidade financeira, econômica e monetária do país, além de interferir em investigações e ações de fiscalização ainda em andamento.

O argumento central do BC é que os arquivos contêm informações sensíveis. A autarquia afirma que a exposição desses dados pode afetar atividades de inteligência e dificultar a prevenção ou repressão de irregularidades no sistema financeiro. Ainda assim, a decisão levanta uma dúvida inevitável: até que ponto o sigilo protege o sistema e o que deixa de ser explicado ao público.

TCU cobra explicações sobre o sigilo do Banco Master no BC

No fim de março, o ministro Jhonatan de Jesus, relator do caso no Tribunal de Contas da União, acionou o Banco Central para esclarecer quais partes do processo realmente precisam permanecer sob sigilo.

No despacho, assinado no dia 24 de março de 2026, o ministro pediu que a autoridade monetária detalhe quais documentos ou trechos exigem restrição e se há possibilidade de liberar parte do material.

O movimento busca limitar o alcance da decisão do BC e verificar se o sigilo amplo atende de forma proporcional ao interesse público envolvido. Com isso, o caso passa a expor um ponto sensível: o equilíbrio entre transparência institucional e preservação da estabilidade do sistema financeiro.

O que levou à liquidação do Banco Master

O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master em novembro de 2025, após identificar problemas estruturais graves na instituição.

De acordo com a autoridade monetária, a decisão foi motivada por:

  • Grave crise de liquidez;
  • Comprometimento da situação econômico-financeira;
  • Violações às normas do Sistema Financeiro Nacional.

Além do Banco Master S/A, também entraram em liquidação:

  • Banco Master de Investimento S/A;
  • Banco Letsbank S/A;
  • Master S/A Corretora de Câmbio, Títulos e Valores Mobiliários.

Dados do próprio BC indicavam que o conglomerado representava 0,57% dos ativos totais e 0,55% das captações do sistema financeiro nacional.

Sigilo prolongado amplia debate sobre transparência

A decisão de manter os documentos em segredo por oito anos amplia o debate sobre os limites da transparência em casos que envolvem risco sistêmico.

De um lado, o Banco Central sustenta que a restrição protege o funcionamento do sistema financeiro e evita impactos em investigações. De outro, a atuação do TCU reforça a necessidade de acesso a informações que permitam avaliar a conduta da própria autoridade monetária.

O desfecho desse impasse tende a definir até onde vai o poder do BC de restringir dados em situações consideradas sensíveis e qual será o nível de transparência exigido quando crises financeiras voltarem a atingir o país.

Foto de Ramylle Freitas

Ramylle Freitas

Ramylle Freitas é jornalista formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Atua na cobertura de política e geopolítica no J1 News Brasil, com produção de conteúdos analíticos voltados ao cenário institucional, relações internacionais e dinâmicas de poder. Também colabora com a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), reforçando o compromisso com apuração rigorosa e checagem de fatos.

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