Camisotti promete devolver R$ 400 milhões, mas prejuízo no INSS chega a R$ 6,3 bi

O empresário Maurício Camisotti se comprometeu a devolver R$ 400 milhões em delação sobre fraudes no INSS. O valor, porém, cobre apenas parte do prejuízo estimado em R$ 6,3 bilhões, evidenciando os limites da recuperação de recursos públicos.
Maurício Camisotti e sede do INSS em imagem sobre devolução de R$ 400 milhões em fraude previdenciária
Empresário Maurício Camisotti se compromete a devolver R$ 400 milhões após investigação de fraudes no INSS. (Foto: J1 Editada)

O empresário Maurício Camisotti se comprometeu a devolver R$ 400 milhões aos cofres públicos em acordo de delação premiada no âmbito das fraudes no INSS. A informação foi divulgada com exclusividade pelo SBT News nesta sexta-feira (10/04) e revela que o valor representa apenas uma fração do prejuízo estimado em até R$ 6,3 bilhões.

Na prática, o valor negociado representa cerca de 6% do dano total investigado. O dado evidencia um padrão recorrente em esquemas de grande escala. Mesmo com colaboração e recuperação parcial, a maior parte do dinheiro desviado não retorna aos cofres públicos.

O valor foi acertado entre Camisotti e a Polícia Federal (PF) e integra o acordo de colaboração enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF), onde aguarda homologação. Antes disso, a Procuradoria-Geral da República (PGR), sob comando de Paulo Gonet, deve se manifestar sobre os termos do acordo.

Recuperação limitada diante de um esquema bilionário

O montante à ser devolvido coincide com valores que circularam por entidades ligadas ao esquema. O principal exemplo é a Ambec (Associação de Aposentados Mutualistas para Benefícios Coletivos, uma das maiores beneficiárias de repasses do INSS entre 2023 e 2025.

Apesar do valor elevado, a devolução não recompõe o impacto total das fraudes. O prejuízo estimado de R$ 6,3 bilhões envolve uma estrutura mais ampla, com múltiplos operadores, intermediários e entidades que participaram do fluxo de recursos ao longo de cinco anos.

Esse descompasso indica que a a recuperação de dinheiro desviado depende não apenas da delação de um dos principais operadores, mas do avanço das investigações sobre outros núcleos do esquema.

Impacto direto nas contas públicas e nos aposentados

O esquema atingia diretamente aposentados e pensionistas, que tinham descontos aplicados em seus benefícios sem consentimento. Esses valores eram direcionados a associações que, segundo a investigação, funcionavam como intermediárias para viabilizar o desvio.

Do ponto de vista fiscal, o prejuízo afeta o orçamento da Previdência. Também pressiona o controle sobre os mecanismos de desconto em folha do INSS.

Além disso, parte do dinheiro desviado pode ter sido pulverizado por meio de estruturas empresariais. Isso inclui um fintech já na mira da Polícia Federal e operações financeiras via fundos. Esse modelo dificulta a rastreabilidade e reduz o potencial de recuperação integral.

Delação amplia alcance da investigação

A colaboração de Camisotti é considerada estratégica pela Polícia Federal. Ela detalha o funcionamento interno do esquema e aponta outros envolvidos. A partir dessas informações, 31 investigados foram convocados para prestar depoimento. Ainda em 2025, o advogado Nelson Williams foi alvo de operação da Policia Federal por seu relacionamento com o empresário.

Entre os nomes estão assessores ligados ao senador Weverton Rocha (PDT-MA), além de empresários, advogados e pessoas com passagem por órgãos públicos, incluindo o INSS e a Caixa Econômica Federal.

A ampliação do número de investigados indica que a apuração pode avançar para além do núcleo operacional, atingindo conexões com estruturas políticas e administrativas.

Estrutura usava associações para viabilizar descontos

Na delação, Camisotti descreveu como o esquema operava na prática. Beneficiários eram incluídos como filiados a associações sem consentimento, o que permitia a aplicação automática de descontos nos benefícios previdenciários.

Segundo as investigações, o empresário controlava três entidades: a Ambec, a União dos Aposentados e Pensionistas do Brasil (Unsbras) e o Centro de Estudos dos Benefícios dos Aposentados e Pensionistas (Cebap).

Embora formalmente apresentadas como associações voltadas ao atendimento de aposentados, essas estruturas tinham dirigentes ligados ao grupo empresarial de Camisotti, incluindo funcionários e familiares. Isso permitia manter um fluxo contínuo de cobranças com baixa validação das adesões.

Fraude no INSS e devolução de dinheiro ainda dependem de decisões

Camisotti está preso desde 12 de setembro de 2025, quando foi detido na Operação Sem Desconto, da Polícia Federal. Ele é apontado como um dos principais operadores do esquema.

A efetivação da devolução dos R$ 400 milhões depende da homologação do acordo pelo STF, sob relatoria do ministro André Mendonça. Entre os benefícios previstos está a possibilidade de prisão domiciliar.

Mesmo com a colaboração, o caso evidencia um ponto central. A fraude no INSS e a devolução de dinheiro ainda estão longe de um desfecho. A recuperação integral dos valores depende do avanço das investigações e da responsabilização de outros envolvidos no esquema.

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Jackson Pereira Jr

Jackson Pereira Jr. é jornalista e empreendedor, fundador do Sistema BNTI de Comunicação. Integra a equipe editorial do J1 News, com produção de conteúdos e análises voltadas às editorias de política, economia, negócios, tecnologia e temas de interesse público. Também atua editorialmente no Economic News Brasil e no Boa Notícia Brasil.

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