Como espionagem deu vantagem sobre a Justiça no caso Banco Master

Espionagem no caso Banco Master permitiu a Daniel Vorcaro acessar dados sigilosos e antecipar decisões da Justiça. O episódio expõe falhas graves na segurança institucional e levanta dúvidas sobre investigações no Brasil.
Daniel Vorcaro, ex-banqueiro do Banco Master investigado por espionagem e acesso ilegal a dados da Justiça
Daniel Vorcaro é investigado por ter acesso antecipado a informações sigilosas no caso Banco Master. Foto: Reprodução

A descoberta de espionagem no caso Banco Master revelou uma falha grave na proteção de dados da Justiça brasileira. Informações sob sigilo máximo foram acessadas ilegalmente e usadas para antecipar decisões judiciais, um cenário que levanta dúvidas sobre a capacidade do Estado de conduzir investigações sensíveis sem interferência externa.

O ponto mais crítico do caso não é apenas a fraude bilionária envolvendo o banco, mas o fato de que decisões judiciais protegidas por sigilo foram acessadas antes de serem executadas. As informações são da Folha de S.Paulo, que revelou que esse acesso ilegal permitiu a Daniel Vorcaro receber com antecedência dados estratégicos da investigação e reagir antes da ação das autoridades.

Na prática, isso significa que um investigado conseguiu agir com vantagem sobre o próprio sistema que deveria julgá-lo.

Espionagem no caso Master: acesso direto ao núcleo da investigação

O episódio central ocorreu em 23 de julho do ano passado, quando uma ação hacker conseguiu invadir o computador do procurador Gabriel Pimenta, do Ministério Público Federal (MPF), responsável pela investigação criminal contra Vorcaro, dono do Banco Master.

Todo o conteúdo do processo, que estava sob sigilo, foi acessado. No dia seguinte, os arquivos já estavam no celular do ex-banqueiro. Isso colocou nas mãos do investigado informações estratégicas da investigação, incluindo provas reunidas, linhas de apuração e próximos passos das autoridades.

O MPF detectou o acesso ilegal poucos dias depois, após realizar uma varredura técnica. Ainda assim, o fluxo de informações sigilosas não foi interrompido.

Antecipação de decisões sob sigilo máximo

Meses depois, o caso atingiu um nível mais sensível.

Mesmo sob grau máximo de sigilo, nível 5, informações sobre a ordem de prisão de Vorcaro chegaram a ele antes da execução. O juiz Ricardo Leite, da 10ª Vara Federal de Brasília, assinou a decisão por volta das 15h do dia 17 de novembro.

Antes que qualquer medida fosse cumprida, o investigado já sabia do teor da decisão. Esse tipo de acesso altera completamente o equilíbrio de uma investigação criminal. Com ele, é possível prever ações policiais, reorganizar estratégias e evitar abordagens.

Ainda segundo a apuração da Folha de S.Paulo, o vazamento da operação deflagrou um contra-ataque do entorno de Vorcaro, em uma sucessão de eventos que investigadores compararam a um enredo de filme policial.

Reação antecipada e suspeita de fuga

A partir desse momento, investigadores identificaram uma sequência de movimentos coordenados.

Enquanto buscava autorização nos órgãos de controle do tráfego aéreo para um plano de voo com destino a Malta, no Mediterrâneo, a defesa de Vorcaro apresentou uma petição ao juiz. O objetivo era revogar qualquer medida cautelar que pudesse impedir a prisão.

No fim da tarde daquele mesmo dia, a Fictor Holding Financeira anunciou uma proposta de compra do Banco Master. Para investigadores, o lance não passou de um simulacro para facilitar a fuga de Vorcaro.

Mais cedo, entre 13h30 e 14h10, o dono do Master havia se reunido por videoconferência com o diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino, com o então chefe do departamento de Supervisão Bancária, Belline Santana, e com o adjunto Paulo Sérgio de Souza. O Banco Central afastou os dois últimos e passou a investigá-los por prestar suposta consultoria informal ao ex-banqueiro.

Na reunião, Vorcaro falou sobre iniciativas que estariam em curso em busca de uma solução de mercado que evitasse a liquidação do banco. O relato incluía a hipótese de venda da instituição a potenciais investidores estrangeiros. Ele chegou a informar que viajaria a Dubai para avançar nas tratativas.

A fala aumentou a desconfiança no Banco Central sobre risco de fuga, reforçada pelo fato de que o ex-banqueiro havia pedido para antecipar para aquela segunda-feira um encontro que estava marcado apenas para o fim da semana.

Monitoramento da PF e suspeita de fuga

Enquanto as conversas com o BC aconteciam, a Polícia Federal monitorava os passos de Vorcaro. Os policiais identificaram pelo menos três planos de voo. A defesa de Vorcaro sempre negou que ele tentava fugir e afirmou que o embarque para Dubai tinha como objetivo contatos com compradores.

Integrantes da corporação afirmam que a existência de mais de uma rota comprova que ele tentava deixar o país e que recebeu informações de informantes.

Estrutura paralela de informação

Mensagens retiradas do celular do investigado apontaram trocas com Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como Sicário. A Polícia Federal identificou Mourão como operador central de um grupo chamado A Turma, que atuava na obtenção de informações, monitoramento de pessoas e uso de violência.

Segundo a investigação, essa estrutura funcionava como um núcleo paralelo de inteligência, com capacidade de acessar dados, antecipar movimentos institucionais e acompanhar alvos.

Mourão morreu no início de março após tentar suicídio em uma cela da superintendência da Polícia Federal em Minas Gerais, pouco depois de a PF prendê-lo na segunda fase da operação Compliance Zero.

Falha expõe vulnerabilidade institucional

O caso revela uma fragilidade estrutural.

Se um investigado consegue acessar dados sob sigilo máximo, antecipar decisões judiciais e reagir antes da ação do Estado, o problema deixa de ser pontual e passa a ser sistêmico.

A invasão ao computador de um procurador e o vazamento de informações sensíveis indicam brechas relevantes na proteção de dados de investigações.

Esse tipo de violação não afeta apenas um caso específico. Ele cria um precedente perigoso. Investigações podem ser comprometidas antes de chegarem ao resultado.

Para o cidadão comum, isso se traduz em um risco concreto, o de que crimes complexos, especialmente financeiros, escapem do controle por falhas internas do próprio Estado.

O desfecho: prisão e colapso financeiro

A estratégia de antecipação não foi suficiente para evitar a prisão.

Vorcaro foi preso pela Polícia Federal no aeroporto de Guarulhos na noite de 17 de novembro de 2025. O colegiado do Banco Central já havia aprovado a liquidação do Master quase na mesma hora em que o juiz assinou a prisão.

O BC só anunciou a liquidação no dia seguinte, 18 de novembro, após o liquidante Eduardo Félix Bianchini entrar no prédio do Master em São Paulo.

O Banco Central concluiu que o conglomerado enfrentava uma crise crônica de liquidez, que evoluiu para uma crise aguda e insustentável. Em relatório ao Tribunal de Contas da União, o Banco Central justificou a medida com estratégias de negócios inadequadas e graves irregularidades. O órgão citou ilícitos como cessão de créditos inexistentes e descumprimento reiterado de normas regulatórias. Também apontou a baixa liquidez dos ativos e a frustração de soluções de mercado.

Funcionários antigos do Banco Central disseram à reportagem que nunca haviam visto tanta pressão sobre o órgão. Em depoimento à CPI do crime organizado, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, relatou que, na semana da rejeição da compra do BRB, via painéis com a foto do diretor Renato Gomes, acusado de barrar a aquisição por motivação política.

Painéis luminosos gerenciados pelo Metrópoles em Brasília exibiram imagens com a foto de Renato Gomes, responsável pela área que analisou e recomendou o veto à operação, e o apontaram como responsável por dificultar o negócio. O ex-senador Luiz Estevão afirmou à Folha que os painéis exibem, além de publicidade, reportagens jornalísticas.

Pressão política no Congresso

Na véspera da negativa, partidos do Centrão na Câmara assinaram um requerimento de urgência. O texto tratava de um projeto de lei que permitiria ao Congresso destituir presidentes e diretores do Banco Central.

Esses movimentos, segundo o relato, fortaleceram a união interna no colegiado do Banco Central. Antes, o grupo estava dividido. Ailton de Aquino defendia a venda do banco. Renato Gomes apoiava uma liquidação mais rápida.

No dia do anúncio da liquidação, o Master tinha em caixa R$ 4,8 milhões, enquanto os vencimentos de CDBs somavam R$ 48,6 milhões naquela data. Considerando os vencimentos de toda a semana, o passivo chegava a R$ 123,8 milhões.

O banco terminou com déficit de liquidez imediato superior a 2.400%. Ao TCU, o Banco Central informou que a liquidação reduziu os custos para a sociedade e para o Fundo Garantidor de Crédito, o FGC.

A dimensão do esquema

A Folha de S.Paulo identificou que as fraudes do Master envolveram pelo menos 216 fundos diferentes e 143 empresas, em um levantamento iniciado em janeiro deste ano. A equipe utilizou um software especial para organizar as conexões como se fossem um sistema solar com seus satélites. A base de dados é atualizada regularmente.

A investigação passou a destrinchar essa rede a partir de seis fundos da Reag que o Banco Central identificou como suspeitos no caso do Master:

  • Astralo 95
  • Reag Growth 95
  • Hans 95
  • Olaf 95
  • Maia 95
  • Anna

Juntos, esses fundos tinham patrimônio líquido de R$ 102,4 bilhões.

Nesses fundos estavam os ativos usados por Vorcaro para operar as fraudes, como papéis podres do extinto Banco do Estado de Santa Catarina, o Besc, conhecidos como cártulas, e créditos de carbono.

Esses ativos de difícil avaliação tinham seu valor estimado como bilionário pelos fundos. A partir daí, as cotas se valorizavam.

O dinheiro obtido era injetado em outros fundos e empresas da ciranda de fraudes. Em um desses casos, serviu para comprar a mansão de R$ 36 milhões usada por Vorcaro em Brasília e frequentada por autoridades.

Foto de Ramylle Freitas

Ramylle Freitas

Ramylle Freitas é jornalista formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Atua na cobertura de política e geopolítica no J1 News Brasil, com produção de conteúdos analíticos voltados ao cenário institucional, relações internacionais e dinâmicas de poder. Também colabora com a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), reforçando o compromisso com apuração rigorosa e checagem de fatos.

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