México adota modelo de saúde parecido com SUS e amplia acesso

O México inicia um sistema de saúde inspirado no SUS brasileiro para ampliar o acesso da população. A proposta inclui integração de dados, atendimento universal e foco em idosos e pessoas sem cobertura médica, com início do cadastro em abril.
Lula e Claudia Sheinbaum em encontro oficial sobre cooperação em saúde entre Brasil e México
O presidente Lula e a presidenta do México, Claudia Sheinbaum, durante encontro que reforça cooperação em saúde e modelo inspirado no SUS. Foto: Ricardo Stuckert/PR

O México inicia, na próxima segunda-feira (13/04), a primeira etapa de um sistema de saúde do México inspirado no (Sistema Único de Sáude) SUS brasileiro, com impacto direto no acesso a consultas, exames e medicamentos. A mudança começa pelos idosos acima de 85 anos, grupo que hoje enfrenta mais dificuldade para manter atendimento contínuo, e deve alcançar milhões de pessoas sem cobertura estável no país.

A criação do sistema de saúde do México, nos moldes do SUS, tenta corrigir um problema estrutural: o acesso desigual ao atendimento. Atualmente, o país opera com redes separadas, onde o tipo de trabalho define o nível de acesso, o que deixa informais, desempregados e idosos mais expostos a falhas no atendimento.

Na prática, isso significa que muitos pacientes chegam a consultas sem histórico médico disponível ou enfrentam dificuldade para dar continuidade a tratamentos, especialmente em casos crônicos.

Modelo inspirado no SUS tenta unificar atendimento

Com a nova estrutura, o governo busca aproximar o funcionamento ao do SUS, em que o acesso não depende do vínculo empregatício. A proposta é integrar dados de diferentes redes e permitir que qualquer cidadão seja atendido com base em um cadastro único.

Isso deve evitar atendimentos sem informação prévia e reduzir a repetição de exames, um problema recorrente no sistema atual.

O que muda na prática para a população

A primeira fase do sistema de saúde do México prioriza idosos com mais de 85 anos e seus cuidadores. Eles serão os primeiros a receber um documento único de identificação, válido em toda a rede pública.

Hoje, muitos desses pacientes dependem de estruturas específicas, como o Instituto Mexicano del Seguro Social (IMSS) ou o Instituto de Seguridad y Servicios Sociales de los Trabajadores del Estado (ISSSTE), o que limita o acesso fora dessas redes.

Com o novo modelo, o paciente poderá circular entre unidades com maior facilidade, o que tende a reduzir barreiras no atendimento, principalmente em situações de urgência.

Informais e população sem cobertura devem ser os mais impactados

O novo sistema também mira um dos principais pontos de desigualdade: o acesso de trabalhadores informais, desempregados e pessoas fora do mercado formal.

Esse grupo, que hoje depende de serviços mais restritos da Secretaria de Saúde e programas estaduais, costuma enfrentar filas maiores e menor acesso a especialistas.

Com a ampliação da cobertura, o governo pretende incluir consultas preventivas, acompanhamento de doenças crônicas e acesso mais amplo a tratamentos contínuos.

Digitalização pode acelerar atendimento, mas expõe limite

Um dos pilares do sistema de saúde do México é a digitalização dos dados. O governo planeja um aplicativo que centraliza prontuários, exames laboratoriais e histórico médico.

Na prática, isso pode reduzir o tempo de diagnóstico e melhorar decisões clínicas. Mas há um limite. Cerca de 28% da população ainda não tem acesso à internet, o que pode dificultar o uso pleno da ferramenta.

Estrutura inicial tenta dar conta da demanda

Na primeira etapa, o governo prevê atingir cerca de 2 milhões de pessoas em 24 estados, com atuação em 47 municípios e mais de 2.059 módulos de cadastramento.

A rede conta com cerca de 2 mil centros médicos, considerados suficientes para a fase inicial. O documento de identificação deve ser entregue em até seis semanas após o cadastro, que vai até o dia 30 de abril.

As prioridades incluem atendimento emergencial, gravidez de alto risco, infartos, doenças neurológicas, câncer de mama, saúde mental e consultas preventivas.

Falta de profissionais pode pressionar o sistema

Apesar da ampliação do acesso, a capacidade de atendimento segue como ponto sensível, um desafio também observado em sistemas universais como o SUS. Dados da Organização Pan-Americana da Saúde mostram que o México ainda enfrenta limitações na oferta de profissionais.

Em 2021, o país tinha 26,09 médicos por 10 mil habitantes. No caso dos dentistas, eram apenas 0,11 por 10 mil pessoas em 2020, um número que indica possível sobrecarga no sistema.

A expansão prevista para 2028 inclui mais acesso a especialistas e foco em doenças crônicas, como Alzheimer, osteoartrite e artrite reumatoide, o que deve aumentar ainda mais a demanda por atendimento contínuo.

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Ramylle Freitas

Ramylle Freitas é jornalista formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Atua na cobertura de política e geopolítica no J1 News Brasil, com produção de conteúdos analíticos voltados ao cenário institucional, relações internacionais e dinâmicas de poder. Também colabora com a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), reforçando o compromisso com apuração rigorosa e checagem de fatos.

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