A CPI do crime organizado chega ao fim na terça-feira (14/04) com um resultado que expõe o limite da investigação: dos 110 depoimentos aprovados, apenas 18 ocorreram. Na prática, mais de 90 pessoas deixaram de ser ouvidas — o que reduz diretamente a capacidade de esclarecer como o crime atua no país.
O impacto é concreto. Sem esses depoimentos, a comissão perde acesso a informações-chave sobre esquemas, conexões políticas e falhas no combate ao crime organizado nos estados. Ou seja, o relatório final deve carregar lacunas relevantes.
CPI aprovou 110 depoimentos, mas ouviu apenas 18
Ao longo de quatro meses de trabalhos, a CPI acumulou requerimentos, mas não conseguiu transformar a maioria deles em depoimentos efetivos. A tentativa de prorrogar os trabalhos por mais 60 dias fracassou, o que encerrou a comissão mesmo com a investigação incompleta.
Esse descompasso revela um problema central: aprovar convocações é uma etapa política, mas executá-las depende de fatores que a CPI não controla — como decisões judiciais, recusas e falta de articulação.
Ausência de autoridades travou avanço da investigação
A lista de ausências inclui nomes estratégicos. Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), como Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, receberam convite, mas não compareceram. Governadores também ficaram de fora, o que compromete a visão nacional que a comissão buscava construir.
Além disso, figuras ligadas a investigações financeiras relevantes não compareceram. O ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto e o ex-governador do Distrito Federal Ibaneis Rocha (MDB) receberam convocação, mas conseguiram habeas corpus na Justiça e evitaram os depoimentos.
Na prática, isso impediu a CPI de avançar em apurações sobre fraudes financeiras, como o caso do Banco Master, que estava entre os focos da comissão.
CPI não conseguiu mapear atuação do crime nos estados
Outro ponto crítico envolve os estados. A CPI pretendia ouvir ao menos 11 governadores e seus secretários de Segurança Pública para mapear a atuação do crime organizado no país. No entanto, apenas Jorginho Mello (PL), de Santa Catarina, participou de audiência.
Sem esse panorama, a comissão perde a capacidade de comparar estratégias, identificar falhas regionais e apontar soluções mais consistentes no combate ao crime.
Decisão política impediu prorrogação da CPI
Mesmo nos momentos finais, o tempo se mostrou insuficiente. A CPI ainda prevê ouvir o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro e votar o relatório final, mas essas etapas ocorrem já no encerramento, sem margem para aprofundamento.
O fim antecipado também tem origem política. A cúpula da CPI pressionou pela prorrogação, mas o presidente do Congresso, Davi Alcolumbre (União-AP), negou o pedido sob o argumento da proximidade do período eleitoral.
A decisão gerou reação interna. O relator Alessandro Vieira (MDB-SE) classificou a negativa como um “desserviço à população” e indicou que a CPI poderia avançar mais com tempo adicional.
O que o fracasso da CPI muda na prática
Mesmo com mais prazo, o desempenho até aqui já indica uma dificuldade estrutural. A diferença entre os 110 depoimentos aprovados e os 18 realizados evidencia que a CPI não transformou seu plano em investigação efetiva.
Para o leitor, o efeito é direto: uma comissão criada para investigar o crime organizado termina sem ouvir a maioria dos envolvidos e sem esclarecer pontos centrais.
Com isso, a CPI se encerra deixando mais dúvidas do que respostas — e um retrato claro das limitações políticas e jurídicas que cercam esse tipo de investigação no Brasil.