STF julga “cura gay” e pode mudar regras da psicologia no Brasil

O STF retoma julgamento sobre “cura gay” e pode redefinir limites entre religião e psicologia. A decisão deve impactar diretamente a atuação de psicólogos e a proteção de pacientes no Brasil.
STF julga cura gay e discute limites entre psicologia e religião - Foto: Bruno Moura/STF
Supremo Tribunal Federal analisa regras da psicologia e uso de religião em atendimentos - Foto: Bruno Moura/STF

O julgamento sobre a atuação de psicólogos e o uso de religião no atendimento voltou ao centro do debate nacional com a análise da cura gay no STF, tema que pode provocar uma mudança direta nas regras da psicologia no Brasil. Nesse contexto, a decisão da Corte deve definir até onde crenças religiosas podem influenciar o atendimento psicológico — e, principalmente, quem será afetado por isso.

O caso ganhou novo peso após o ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), retirar a análise do plenário virtual e levar o tema ao plenário físico. Com isso, o julgamento será reiniciado do zero e, portanto, permitirá que todos os ministros reavaliem os argumentos e ampliem o debate.

Na prática, o STF não analisa apenas uma norma técnica. Na verdade, o que está em jogo é um conflito direto entre liberdade religiosa e a exigência de que a psicologia siga critérios científicos no cuidado com a saúde mental.

Logo no início, o impacto se torna evidente: a decisão pode alterar o que psicólogos estão autorizados a fazer dentro do consultório e, ao mesmo tempo, influenciar a forma como pacientes recebem atendimento.

O que está em disputa no STF

O julgamento envolve a Resolução nº 7/2023 do Conselho Federal de Psicologia (CFP), que proíbe práticas associadas à chamada “cura gay”. Dessa forma, a norma impede que profissionais utilizem religião como base para intervenções psicológicas.

Na prática, isso inclui:

  • uso de orações ou rituais como método terapêutico
  • tentativa de alterar a orientação sexual de pacientes
  • associação entre fé e técnicas psicológicas

Segundo o CFP, essas práticas não têm respaldo científico e, por isso, podem causar danos à saúde mental.

Ciência e religião entram em choque

O ponto central do julgamento é o choque entre dois direitos constitucionais.

De um lado, o Partido Novo e o Instituto Brasileiro de Direito e Religião (IBDR) afirmam que a resolução limita a liberdade individual. Para esses grupos, tanto psicólogos quanto pacientes deveriam poder escolher abordagens que incluam convicções religiosas.

Por outro lado, o Partido Democrático Trabalhista (PDT) e o Centro de Estudos Freudianos do Recife defendem que a psicologia não pode abrir espaço para práticas sem validação científica. Segundo esse entendimento, flexibilizar as regras pode abrir caminho para intervenções potencialmente prejudiciais.

Diante disso, o confronto revela uma pergunta central: a psicologia deve incorporar crenças pessoais no atendimento ou, ao contrário, proteger o paciente de práticas sem evidência?

O posicionamento de Alexandre de Moraes

Antes da interrupção do julgamento, o relator do caso, ministro Alexandre de Moraes, já havia apresentado seu voto.

Ele se posicionou a favor da constitucionalidade da resolução do CFP e, além disso, rejeitou os argumentos de violação à liberdade religiosa. Para Moraes, a atuação do psicólogo precisa seguir critérios técnicos e científicos e, portanto, não pode sofrer interferência de crenças pessoais.

Além disso, o ministro afirmou de forma direta que práticas como orações, rituais ou qualquer abordagem sem validação científica devem ficar fora do exercício profissional.

Na avaliação dele, permitir esse tipo de intervenção pode expor pacientes a riscos, sobretudo em contextos de vulnerabilidade.

Por que a decisão pode ir além da “cura gay”

Embora o debate esteja centrado na chamada “cura gay”, o alcance da decisão do STF é mais amplo.

A Corte pode estabelecer um precedente sobre:

  • limites da liberdade religiosa em profissões regulamentadas
  • autonomia de conselhos profissionais
  • proteção de pacientes na área da saúde

Assim, o julgamento pode influenciar outras áreas além da psicologia, especialmente aquelas que também enfrentam conflitos entre crença pessoal e atuação técnica.

O que pode mudar para psicólogos e pacientes

Se o STF mantiver a validade da resolução, psicólogos continuarão proibidos de usar religião como ferramenta terapêutica. Com isso, a exigência de práticas baseadas em evidências científicas se mantém.

Por outro lado, se a Corte flexibilizar a norma, será possível ampliar as abordagens dentro do consultório. Ainda assim, esse cenário pode gerar controvérsias e aumentar a insegurança sobre os limites da atuação profissional.

Nesse contexto, os pacientes são diretamente afetados. Pessoas que buscam ajuda psicológica podem ser expostas a diferentes tipos de abordagem, o que torna a decisão ainda mais sensível.

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Julgamento recomeça e deve ampliar tensão no STF

Com o pedido de destaque de Edson Fachin, o julgamento será reiniciado no plenário físico do STF. Até o momento, não há data definida para a retomada.

Esse movimento indica que o tema ganhou relevância dentro da Corte e, por isso, deve provocar discussões mais profundas entre os ministros.

Ao final, a decisão não será apenas jurídica. Na prática, o STF deve definir qual será o limite entre fé e ciência dentro da psicologia no Brasil — e, consequentemente, isso pode mudar a forma como o atendimento em saúde mental é conduzido no país.

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Jussier Lucas

Jussier Lucas é jornalista formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e repórter do J1 News Brasil. Atua na cobertura de política, atualidades e temas de interesse público, com experiência em reportagem, comunicação pública e assessoria de imprensa na TV Universitária (TVU) e no TRE-RN.

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