Falhas no estudo da polilaminina foram reconhecidas pela pesquisadora Tatiana Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em entrevista publicada no sábado (07/03). Responsável pelo trabalho científico sobre o medicamento experimental para lesões medulares, ela afirmou que o artigo divulgado em formato pré-print contém inconsistências na apresentação de alguns dados.
Ainda assim, Tatiana sustenta que os resultados obtidos com a substância permanecem válidos. Por isso, a equipe prepara uma nova versão revisada do estudo, com ajustes na descrição dos resultados e correções na estrutura do artigo.
Falhas no estudo da polilaminina e revisão do artigo
Tatiana explicou que a revisão inclui mudanças na organização dos dados e também na forma de apresentar os resultados. Segundo ela, a equipe decidiu revisar o material para aprimorar a apresentação científica do estudo. Ainda assim, a pesquisadora afirma que a revisão não ocorreu por causa das críticas feitas após a divulgação do trabalho.
Além disso, a equipe já tentou publicar uma versão corrigida do artigo em periódicos científicos internacionais. Os pesquisadores enviaram o texto à Springer Nature, editora responsável por revistas do grupo Nature, e também ao Journal of Neurosurgery. No entanto, ambos os periódicos rejeitaram a publicação.
Diante desse cenário, os pesquisadores agora preparam um novo manuscrito que reunirá resultados acumulados ao longo de cerca de 20 anos de pesquisas conduzidas na UFRJ. Dessa forma, a equipe pretende submeter novamente o estudo a uma revista científica após concluir a revisão completa.
Resultados preliminares impulsionaram interesse
A polilaminina ganhou visibilidade nacional depois que casos de recuperação de pacientes com lesão medular vieram a público. Um dos exemplos é Bruno Sampaio, que ficou tetraplégico após um acidente em 2018 e posteriormente voltou a caminhar após receber o tratamento.
O medicamento experimental deriva da proteína laminina, isolada de placentas. Essa substância atua na regeneração de axônios, estruturas dos neurônios que sofrem danos quando ocorre uma lesão na medula espinhal.
Nos testes preliminares, os pesquisadores aplicaram o tratamento em cães e em oito voluntários humanos entre 2018 e 2021. Durante os procedimentos cirúrgicos, os médicos administraram a substância diretamente na medula espinhal até 72 horas após a lesão. Os resultados variaram: alguns pacientes recuperaram completamente os movimentos, enquanto outros apresentaram melhora parcial.
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Falhas no estudo: testes clínicos e decisões judiciais ampliam pressão
Enquanto a revisão científica avança, a polilaminina entrou na etapa inicial de validação regulatória. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o início da fase 1 dos estudos clínicos, que avaliará a segurança do medicamento.
Nessa etapa, os pesquisadores acompanharão cinco voluntários com lesões completas da medula torácica entre as vértebras T2 e T10. Os participantes terão entre 18 e 72 anos e precisarão ter sofrido a lesão há menos de 72 horas.
Além disso, pacientes com lesões medulares passaram a recorrer à Justiça para obter acesso ao tratamento. Até agora, o laboratório Cristália recebeu 37 pedidos judiciais, e os médicos já realizaram 22 aplicações da substância.