Câmara avança com projeto de minerais críticos e altera negociação do Brasil com EUA

Projeto sobre minerais críticos no Brasil avança na Câmara, cria fundo bilionário e altera a negociação com os EUA ao exigir industrialização local
Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva apertam as mãos em encontro bilateral entre Brasil e Estados Unidos
Lula e Trump devem se reunir na próxima quinta (07/05) após avanço de projeto sobre minerais críticos no Brasil que muda regras para investimento estrangeiro

A Câmara dos Deputados avançou com o projeto de minerais críticos no Brasil, que condiciona o acesso a financiamento à instalação de processamento industrial no país. A proposta muda o tipo de investimento permitido e restringe operações focadas apenas na extração.

Realizada nesta terça-feira (05/05), a votação ocorre antes do encontro entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, que deve ocorrer na quinta-feira (07/05) em Washington, inserindo o tema na negociação bilateral. O texto redefine como empresas estrangeiras podem acessar reservas estratégicas como terras raras.

O projeto altera o ponto de entrada no setor mineral ao transformar crédito em instrumento de seleção. Ao vincular financiamento à industrialização, o governo passa a definir quais modelos de negócio podem operar no país. Deslocando, assim, o foco da extração para a produção de maior valor agregado.

Essa mudança cria uma divisão imediata no mercado. Empresas estruturadas para exportar minério bruto perdem competitividade, enquanto grupos com capacidade industrial ganham acesso a garantias públicas. Além disso, melhores condições de financiamento, o que reposiciona o fluxo de investimento no setor.

Projeto de minerais críticos no Brasil altera relação com investidores estrangeiros

O texto prevê um fundo garantidor de até R$ 5 bilhões, sendo R$ 2 bilhões de origem pública, para viabilizar projetos no setor. O acesso aos recursos depende de compromissos com tecnologia e beneficiamento no país.

A medida contrasta com a posição dos Estados Unidos, que defendem maior abertura e menos restrições para investimento em mineração de minerais críticos no Brasil,

Na prática, o projeto impõe novas condições:

  • Exigência de industrialização local
  • Avaliação por conselho estratégico
  • Menor estímulo à exportação de minério bruto

Esse desenho altera a lógica de entrada do capital estrangeiro e eleva o grau de controle sobre ativos considerados sensíveis.

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Terras raras ampliam peso estratégico do Brasil na disputa global

Os minerais críticos são insumos centrais para setores que concentram investimento e poder econômico, como a produção de baterias para veículos elétricos, a fabricação de semicondutores e a expansão de fontes de energia renovável. Esses segmentos definem o ritmo da transição energética e da indústria digital, o que transforma o acesso a esses recursos em um ativo estratégico.

A dependência global desses insumos, hoje concentrada na China, ampliou a disputa por novas fontes de fornecimento. Nesse contexto, o Brasil ganha relevância por deter uma das maiores reservas de minerais críticos do mundo, mas ainda enfrenta limitações na capacidade de explorar e processar esses minerais em escala.

A operação da mina Serra Verde, em Goiás, desde 2024, e sua aquisição por uma empresa americana em 2026 indicam que o interesse externo já se antecipou a esse movimento. O país passa a ser visto não apenas como fornecedor potencial, mas como peça na reorganização das cadeias globais de tecnologia.

Fundo e governança elevam potencial industrial, mas criam travas

O projeto combina incentivo financeiro com maior controle institucional ao criar um conselho responsável por aprovar projetos estratégicos, o que amplia a capacidade do Estado de direcionar o desenvolvimento do setor mineral.

Esse desenho concentra ganhos e riscos na mesma estrutura. Ao mesmo tempo em que cria condições para expandir a cadeia industrial e reter valor dentro do país, aumenta a incerteza para investidores ao submeter decisões a critérios políticos e estratégicos, o que pode limitar a entrada de capital externo no curto prazo.

A consequência é um modelo que tenta acelerar a industrialização sem abrir mão do controle, mas que passa a depender da capacidade do próprio Estado de equilibrar esse poder. O avanço dos minerais críticos no Brasil deixa de ser apenas uma agenda de exploração e passa a refletir uma disputa por controle econômico, na qual o ritmo de expansão será definido menos pela disponibilidade de recursos e mais pela confiança nas regras do jogo.

Foto de Moises Freire Neto

Moises Freire Neto

Moisés Freire Neto é jornalista, formado pela Universidade Estadual do Ceará (UECE), com atuação focada em economia, mercado de trabalho, indústria e políticas públicas. Integra as equipes editoriais do J1 e do Economic News Brasil, veículos do Sistema BNTI de Comunicação. Sua produção é voltada à análise de dados, decisões institucionais e impactos econômicos, com abordagem crítica, rigor factual e interesse público.

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