PF mira Banco Digimais e bloqueia R$ 670 milhões em investigação que pressiona futuro da instituição

O Banco Digimais entrou no centro de uma investigação da Polícia Federal que apura supostas fraudes contábeis e operações financeiras irregulares. A Operação Miragem bloqueou até R$ 670 milhões e levanta dúvidas sobre os próximos passos da instituição controlada por Edir Macedo.
Edir Macedo, controlador do Banco Digimais, durante participação em vídeo enquanto instituição é alvo da Operação Miragem da Polícia Federal.
Banco Digimais, controlado por Edir Macedo, é alvo da Operação Miragem, que apura supostas fraudes contra o Sistema Financeiro Nacional.(Imagem:Instagram).

A Polícia Federal deflagrou nesta terça-feira (23) a Operação Miragem para investigar supostas fraudes contra o Sistema Financeiro Nacional envolvendo a gestão do Banco Digimais, instituição controlada pelo bispo Edir Macedo. A Justiça Federal autorizou buscas, quebra de sigilos e o bloqueio de até R$ 670,3 milhões em bens e valores.

A operação cumpre nove mandados de busca e apreensão em São Paulo. Segundo a PF, as apurações apontam manipulação de balanços, ocultação da situação financeira da instituição e operações consideradas irregulares. Essas práticas teriam produzido receitas artificiais de centenas de milhões de reais.

O bloqueio autorizado pela Justiça não representa perda definitiva dos recursos pelos investigados. A medida busca preservar patrimônio durante a apuração e garantir eventual ressarcimento financeiro caso as suspeitas sejam confirmadas ao fim do processo.

A autorização para quebra de sigilos e o bloqueio bilionário colocam a instituição sob escrutínio ampliado de reguladores e investigadores em um momento considerado decisivo para sua estratégia de mercado. Além disso, o caso ultrapassa a esfera criminal e passa a produzir efeitos sobre a percepção de risco em torno da instituição.

Banco Central apontou irregularidades que deram origem à investigação

De acordo com a Polícia Federal, a investigação teve como base análises de relatórios produzidos pelo Banco Central do Brasil (BC). Esses documentos identificaram indícios de graves irregularidades na condução dos negócios da instituição.

As apurações indicam que administradores teriam promovido uma manipulação sistemática dos demonstrativos financeiros para ocultar a situação econômica real do banco. Com isso, foi transmitida uma imagem de solvência aos órgãos de fiscalização.

Entre as suspeitas apontadas pelos investigadores estão:

  • Supervalorização de ativos;
  • Geração artificial de receitas;
  • Operações de crédito supostamente vedadas pela legislação;
  • Inserção de informações falsas em sistemas regulatórios.

Segundo a PF, os fatos podem configurar crimes previstos na Lei nº 7.492/1986, que trata das infrações contra o Sistema Financeiro Nacional.

Diferentemente de investigações iniciadas por denúncias externas, o caso teve origem em relatórios técnicos produzidos pelo Banco Central. Isso indica que os indícios surgiram durante a própria atividade de supervisão do sistema financeiro. Esse tipo de monitoramento é utilizado para avaliar a conformidade e a situação patrimonial das instituições bancárias.

Investigação atinge banco em meio a negociações estratégicas

O momento da operação chama atenção porque o Banco Digimais passou recentemente por negociações relevantes envolvendo seu controle acionário.

Em abril deste ano, o BTG Pactual anunciou um acordo para adquirir a instituição. Entretanto, a operação dependia de aprovações regulatórias do Banco Central e do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Além disso, havia a possibilidade de surgimento de propostas concorrentes.

Antes disso, uma tentativa de transferência do controle para o empresário Maurício Quadrado também não avançou. O grupo interessado chegou a obter aprovação do Cade, mas desistiu da operação antes da conclusão do processo regulatório.

A sucessão de negociações demonstrava uma busca por reposicionamento da instituição no mercado. Agora, a investigação da PF adiciona um novo fator de incerteza ao processo.

O timing da operação amplia o peso econômico do caso. A investigação ocorre após tentativas de mudança de controle e poucos meses depois do anúncio da compra pelo BTG Pactual. Embora os processos regulatórios sigam critérios próprios, o surgimento de uma investigação criminal tende a elevar o nível de atenção sobre a situação da instituição.

O que está em jogo para o futuro do Banco Digimais

A operação atinge um banco que ainda buscava concluir mudanças estratégicas iniciadas nos últimos anos e que dependiam de estabilidade regulatória para avançar.

Além dos mandados de busca e do bloqueio patrimonial, a Justiça autorizou o afastamento dos sigilos bancário e fiscal dos investigados. Edir Macedo está entre os alvos das medidas patrimoniais e de acesso a informações financeiras. Entretanto, ele não foi alvo de busca porque reside no exterior.

A PF também afirma investigar práticas financeiras consideradas temerárias e aponta suspeitas de operações realizadas em benefício da empresa controladora do banco. Além disso, apura a possível manipulação de informações inseridas em sistemas oficiais do órgão regulador.

O bloqueio de até R$ 670 milhões e a utilização de relatórios do Banco Central como base da investigação colocam o Digimais sob um dos maiores níveis de escrutínio regulatório de sua história recente. Dessa forma, o avanço das apurações poderá influenciar decisões estratégicas futuras, processos societários em andamento e a pressão por mecanismos mais robustos de governança, transparência e controle interno dentro da instituição.

Foto de Eloiza Matarese

Eloiza Matarese

Eloiza Matarese é jornalista do J1 News Brasil, com atuação em Política e Poder. Produz conteúdos estratégicos e analíticos sobre governos, eleições, decisões públicas e articulações institucionais, com olhar investigativo voltado a identificar impactos, contradições e desdobramentos relevantes para o leitor.

Veja também

Mais lidas