Do luxo às cargas do Comando Vermelho, fornecedor comandava logística à distância

Investigação aponta que Laércio Isidoro negociava cargas, fretes e pagamentos ligados ao Comando Vermelho enquanto usava documentos fraudulentos e trocava celulares.
Laércio Isidoro, apontado como fornecedor do Comando Vermelho, aparece em montagem com itens de luxo e ação da Polícia Civil.
Laércio Isidoro do Nascimento Júnior, conhecido como Boss, é apontado pela investigação como fornecedor de drogas para o Comando Vermelho; montagem reúne registro do investigado, itens apreendidos e ação policial.(Imagem: Reprodução).

Laércio Isidoro do Nascimento Júnior, conhecido como Boss, é apontado pela investigação como fornecedor de grandes quantidades de drogas para o Comando Vermelho. Mas sua função ia além da entrega das cargas. Segundo a Polícia Civil, ele negociava drogas, organizava fretes e pagamentos e coordenava operadores logísticos. Enquanto isso, mantinha uma rotina em imóveis de alto padrão e adotava mecanismos para dificultar sua identificação.

Preso em Maceió durante uma operação conjunta das polícias civis do Rio de Janeiro e de Alagoas, Laércio vivia havia cerca de dois anos na capital alagoana. Segundo o delegado Igor Diego Vilela Costa, ele não atuava em crimes no estado. Enquanto isso, seus negócios estavam concentrados no Rio de Janeiro, em São Paulo e em outros estados.

Comando Vermelho recebia drogas de uma estrutura interestadual

A divisão de tarefas descrita pela investigação ajuda a dimensionar a operação. Enquanto Laércio aparece ligado à articulação logística, outros investigados tinham funções de transporte, cobrança e recebimento das cargas no Rio de Janeiro.

Empresas de transporte e logística também são citadas na apuração. Segundo a investigação, elas teriam sido utilizadas para ocultar e viabilizar o envio das drogas em meio a mercadorias regulares. Assim, distribuíam diferentes etapas da operação entre seus integrantes.

A dimensão da estrutura aparece em duas apreensões relacionadas pela denúncia ao grupo. Em fevereiro de 2024, foram apreendidos 715,7 quilos de cocaína e maconha em Guarulhos (SP). Em maio daquele ano, outra operação encontrou 73,8 quilos de cocaína em Seropédica (RJ).

O contexto nacional oferece uma referência sobre o volume de drogas apreendido pelas forças de segurança, mas não mede a participação da estrutura investigada. Segundo o Mapa da Segurança Pública 2025, do Ministério da Justiça e Segurança Pública, 137.357 quilos de cocaína foram apreendidos no Brasil em 2024, dos quais 48.803 quilos no Sudeste. A estatística reúne informações dos estados e do Distrito Federal. Tem base diferente das duas cargas específicas relacionadas à investigação de Laércio, sendo uma delas composta também por maconha.

R$ 70,49 milhões entraram no radar da investigação

O braço financeiro acrescenta outra dimensão ao caso. Comunicações sobre movimentações consideradas atípicas identificaram R$ 70.497.597 em transações em um curto período, envolvendo denunciados e estabelecimentos comerciais ligados à apuração.

O valor exige uma distinção importante: os R$ 70,49 milhões correspondem às movimentações identificadas pela investigação. Dessa forma, não podem ser tratados, a partir das informações disponíveis, como faturamento, lucro ou patrimônio pessoal de Laércio. Segundo a apuração, ele também recorria a laranjas para movimentar e ocultar recursos.

A Polícia Civil afirma ainda que havia conversas com integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) e planos de ampliar a atuação, inclusive para o fornecimento de armas. A expansão era um plano identificado pelos investigadores. As informações disponíveis não permitem tratá-la como negócio já concretizado.

Documentos e celulares dificultavam a identificação

Enquanto a operação investigada alcançava diferentes estados, Laércio mantinha outra identidade. A Polícia Civil afirma que ele utilizava documentos fraudulentos, incluindo identidade, passaporte e uma Carteira de Identidade Nacional (CIN) emitida fraudulentamente em nome de outra pessoa. Esses documentos tinham dados de filiação diferentes dos verdadeiros.

O investigado também trocava de celular semanalmente, segundo a polícia. Na residência em Maceió, agentes encontraram sete caixas de iPhones fechadas, três aparelhos em uso e seis passaportes. Além disso, havia dinheiro, cartões, joias e itens de luxo.

A prisão reuniu duas pontas da investigação: a estrutura interestadual atribuída ao fornecimento de drogas para o Comando Vermelho e os mecanismos usados por Laércio para dificultar sua identificação. Com a prisão e o avanço do processo, caberá à Justiça definir as responsabilidades individuais pelas acusações apresentadas.

Foto de Eloiza Matarese

Eloiza Matarese

Eloiza Matarese é jornalista do J1 News Brasil, com atuação em Política e Poder. Produz conteúdos estratégicos e analíticos sobre governos, eleições, decisões públicas e articulações institucionais, com olhar investigativo voltado a identificar impactos, contradições e desdobramentos relevantes para o leitor.

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