Os Estados Unidos acusaram o governo brasileiro de falhar no enfrentamento ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e ao Comando Vermelho (CV), mas não incluíram o Brasil entre os 23 países apontados como grandes produtores ou pontos de trânsito de drogas ilícitas na determinação presidencial para o ano fiscal de 2027, divulgada nesta quarta-feira (16).
A diferença ajuda a dimensionar o alcance da decisão. Os EUA acusam o Brasil de ter ganhado importância nas rotas globais de cocaína por causa da atuação das duas facções, mas a cobrança não levou o país à classificação formal utilizada anualmente por Washington.
Por que os EUA citaram o Brasil mesmo fora da lista
Segundo o conteúdo divulgado pelo governo americano, a relação referente ao ano fiscal de 2027 reúne 23 países, entre eles Bolívia, Colômbia, México, Peru, Venezuela, China e Índia.
A legislação americana prevê que o presidente identifique grandes países produtores de drogas ilícitas e pontos de trânsito. A presença nessa relação, porém, não funciona isoladamente como uma avaliação sobre o desempenho de determinado governo no combate ao narcotráfico.
A própria determinação oficial referente ao ano fiscal de 2026 ajuda a entender essa diferença. Naquele documento, também foram relacionados 23 países, sem a presença do Brasil. O governo americano explicou que fatores geográficos, comerciais e econômicos podem levar à inclusão mesmo quando as autoridades locais adotam medidas de repressão às drogas.
Há um precedente ainda mais antigo que ajuda a explicar a aparente contradição. Em relatório publicado em 2011, o Departamento de Estado informou que o Brasil havia sido retirado da lista presidencial porque as drogas ilícitas que transitavam pelo país não eram consideradas capazes de afetar significativamente os Estados Unidos.
Isso mostra uma diferença importante para interpretar a determinação atual: ser apontado como território relevante para rotas internacionais de drogas não significa automaticamente integrar a lista presidencial americana.
Cobrança dos EUA mira resposta brasileira ao PCC e CV
Mesmo fora da relação de 23 países, o Brasil recebeu uma cobrança específica. Segundo a administração americana, PCC e Comando Vermelho representam uma ameaça crescente à segurança internacional.
“Essas organizações terroristas brasileiras são uma ameaça crescente à paz e à segurança ao redor do mundo, e o governo do Brasil precisa urgentemente adotar medidas agressivas para confrontá-las e derrotá-las antes que se expandam ainda mais”, afirma o texto divulgado pelos Estados Unidos.
A declaração integra a avaliação do governo americano. Washington afirma que o fortalecimento das facções ampliou a importância do Brasil nas redes internacionais de tráfico de cocaína e acusa o governo brasileiro de ter “falhado em confrontar” as organizações.
Brasil não entra no grupo de países considerados em falha
A determinação ainda estabelece uma classificação diferente para Afeganistão, Bolívia, Mianmar e Colômbia. Segundo Washington, esses quatro países “falharam de forma demonstrável” no cumprimento de compromissos internacionais de combate ao narcotráfico nos últimos 12 meses.
O Brasil também ficou fora desse grupo. Apesar da classificação, os Estados Unidos decidiram manter a assistência a Bolívia, Mianmar e Colômbia por considerarem a cooperação vital aos interesses nacionais americanos.
O documento também cobra ações de México e Canadá para reduzir o fluxo de drogas aos Estados Unidos. No caso mexicano, Washington reconhece apreensões, destruição de laboratórios clandestinos e cooperação na captura de líderes de cartéis, mas exige esforços adicionais. A China, por sua vez, é apontada pelo governo americano como a maior produtora mundial de diversos precursores químicos usados na fabricação de fentanil, metanfetamina e outras drogas sintéticas.
Ao mesmo tempo, a determinação destaca avanços na cooperação com Venezuela, Bolívia e Colômbia e elogia Argentina, Equador e El Salvador pelo combate ao narcotráfico e ao crime organizado.
Assim, a acusação dos EUA contra o Brasil não equivale à inclusão do país nas classificações mencionadas na determinação. A consequência imediata está no endurecimento da cobrança de Washington sobre a resposta brasileira ao PCC e ao Comando Vermelho, enquanto o Brasil permanece fora da relação de 23 países citados como grandes produtores ou pontos de trânsito de drogas ilícitas.