Fontes do Itamaraty confirmaram à TV Globo nesta quinta-feira (17) que o governo dos Estados Unidos incluiu uma condição relacionada à eleição presidencial brasileira de 2026 em uma proposta apresentada durante as negociações comerciais abertas após o tarifaço. A informação havia sido revelada inicialmente pelo Estadão. O documento exigia garantias para a participação de pessoas classificadas como “dissidentes políticos” no processo eleitoral, mas a cobrança foi rejeitada pelo governo brasileiro e ficou fora da negociação formal.
A proposta foi apresentada em outubro de 2025 e reunia 21 exigências dos Estados Unidos ao Brasil, incluindo pontos que iam além de questões comerciais, segundo a Folha de S.Paulo. A CNN informa que o documento foi recebido pela parte brasileira em 16 de outubro daquele ano, durante uma missão a Washington.
O pacote reunia questões políticas e interesses econômicos americanos. Além da eleição, havia demandas relacionadas à compra de aeronaves da Boeing por companhias brasileiras, minerais críticos, Pix e eliminação de tarifas de importação sobre determinados produtos fabricados nos Estados Unidos.
Pressão eleitoral dos EUA entrou em negociação sobre tarifas
No trecho eleitoral, a proposta cobrava do Brasil o compromisso de realizar eleições presidenciais livres e justas em 2026 e de não deter, prender ou limitar arbitrariamente a participação dos chamados “dissidentes políticos”.
Integrantes da diplomacia brasileira contestaram a própria classificação. Fontes do Itamaraty afirmaram que a figura de “dissidente político” não se aplica ao funcionamento das instituições brasileiras. Segundo a CNN, os pontos apresentados pelos americanos sequer foram tratados na reunião de Mauro Vieira com Marco Rubio e Jamieson Greer, representante comercial dos Estados Unidos.
As apurações publicadas nesta quinta-feira (17) divergem sobre até onde o documento circulou antes disso. CNN e Folha relatam que Mauro Vieira teve acesso à proposta; fontes ouvidas pelo SBT e pelo Metrópoles afirmam que a sugestão ficou restrita ao nível técnico. As apurações convergem: as condições eleitorais não foram incorporadas à agenda oficial das tratativas.
Governo Trump já havia associado tarifas a Bolsonaro
A cobrança revelada agora tem um precedente na relação entre os dois países. Em julho de 2025, o governo Trump vinculou publicamente sua política comercial contra o Brasil ao tratamento dispensado ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Naquele período, Trump classificou o julgamento de Bolsonaro como uma “Caça às Bruxas” e criticou sua realização.
Essa associação anterior, porém, não permite atribuir automaticamente a Bolsonaro a expressão usada no documento de outubro. O texto das 21 exigências não cita nominalmente o ex-presidente como “dissidente político”. O SBT relata que Washington não especificou às fontes ouvidas pelo veículo quem deveria ser enquadrado nessa categoria.
Há, contudo, uma segunda camada na apuração. Fontes do Itamaraty ouvidas pelo Metrópoles disseram que a expressão se referia a Bolsonaro e a participantes dos atos de 8 de Janeiro. O próprio veículo registra que o documento não cita o nome do ex-presidente.
A distinção delimita o alcance da pressão eleitoral dos EUA: está comprovado que Washington colocou uma condição sobre participação política na proposta apresentada ao Brasil, mas o documento conhecido até agora não identifica nominalmente quem eram os “dissidentes políticos”. A associação com Bolsonaro vem de relatos posteriores de fontes diplomáticas, e não da redação da exigência americana.