PF detalha papel de Flávio em Dark Horse, mas dinheiro ainda tem lacunas

A PF detalhou contatos de Flávio Bolsonaro com Vorcaro pelo filme Dark Horse e ainda busca esclarecer origem dos recursos e beneficiários finais.
Flávio Bolsonaro, citado em investigação da PF sobre recursos destinados ao filme Dark Horse.
Flávio Bolsonaro aparece em registros analisados pela Polícia Federal sobre a busca de recursos para a produção de “Dark Horse”.(Imagem: Instagram).

A Polícia Federal reuniu mensagens, ligações e registros de encontros que colocam Flávio Bolsonaro como interlocutor direto de Daniel Vorcaro na busca de recursos para “Dark Horse”, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. A documentação detalha cobranças e acompanhamento do projeto pelo senador, enquanto origem dos recursos e beneficiários finais ainda estão entre os pontos que exigem aprofundamento na investigação.

O relatório foi elaborado a partir da extração do celular de Vorcaro e de relatórios de inteligência financeira do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Flávio afirma que os contatos fizeram parte de uma relação privada para captação de patrocínio. Ele nega ter recebido qualquer valor diretamente ou cometido irregularidades.

Flávio e Dark Horse tiveram cobranças por repasses

Um dos registros ocorreu em 8 de setembro de 2025, quando Flávio enviou um áudio a Vorcaro cobrando repasses atrasados para o filme. Segundo a PF, o senador mencionou preocupação com a inadimplência e citou o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh. Vorcaro pediu desculpas e disse que resolveria a situação no dia seguinte.

Em 22 de outubro, Flávio informou que “Dark Horse” estava no terceiro dia de filmagens e no “limite” orçamentário. Pediu que Vorcaro avisasse caso o aporte não fosse viabilizado para que pudesse buscar “outro caminho com urgência”. O ex-banqueiro respondeu que havia liberado mais uma parcela.

A sequência documenta uma participação direta de Flávio na interlocução sobre recursos para a produção. Ela não demonstra, porém, que o senador tenha recebido pessoalmente os valores ou permite identificar, por si só, os destinatários finais das quantias.

PF ainda busca respostas sobre o dinheiro de Dark Horse

A investigação ainda pretende esclarecer pontos da estrutura financeira usada para levar recursos à produção, incluindo o motivo do uso da Entre Investimentos e Participações como intermediária e a função do Havengate Development Fund LP, registrado no Texas.

Na prática, as frentes tratam de etapas diferentes do dinheiro. Identificar a origem esclarece de onde partiram os recursos; examinar a Entre Investimentos e o Havengate permite determinar a função atribuída às estruturas intermediárias; e localizar os beneficiários finais busca estabelecer quem efetivamente recebeu as quantias enviadas ao exterior. O relatório disponível ainda não apresenta respostas conclusivas para esses pontos, e a PF indica a necessidade de aprofundar as apurações.

Um dos registros financeiros aparece em 16 de setembro de 2025. Na mesma data de uma ligação entre Flávio e Vorcaro ocorreu a última remessa de US$ 1,66 milhão da Entre Investimentos para a Havengate, segundo dados do Coaf citados pela investigação. A coincidência das datas não comprova que a ligação tenha provocado, autorizado ou definido a transferência.

Além da origem, das empresas intermediárias e dos beneficiários finais, a PF busca esclarecer a divisão de papéis entre os participantes citados na investigação. Entre eles estão Flávio, Eduardo Bolsonaro, Mario Frias, Thiago Miranda, Fabiano Zettel, Antônio Freixo e os operadores do fundo norte-americano Altieres Santana e Paulo Calixto. O objetivo apontado no relatório é determinar a função concreta de cada um na captação, gestão e destino das quantias.

É esse limite que separa o que já está documentado do que permanece sob investigação no caso de Flávio e Dark Horse. Os contatos, cobranças e acompanhamento da produção constam do material reunido pela PF; já a identificação de quem recebeu os recursos e o papel desempenhado pelas estruturas e participantes ainda dependem do aprofundamento da apuração. Os elementos apresentados até aqui não permitem atribuir a Flávio o recebimento das quantias.

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Eloiza Matarese

Eloiza Matarese é jornalista do J1 News Brasil, com atuação em Política e Poder. Produz conteúdos estratégicos e analíticos sobre governos, eleições, decisões públicas e articulações institucionais, com olhar investigativo voltado a identificar impactos, contradições e desdobramentos relevantes para o leitor.

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