Lula cobra Trump sobre eleições mesmo após enviado prometer neutralidade

Lula diz que já advertiu Trump sobre as eleições; indicado à Embaixada promete neutralidade e observadores poderão relatar interferências ao TSE.
Lula e Donald Trump apertam as mãos durante encontro, com as bandeiras do Brasil e dos Estados Unidos ao fundo
Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump durante encontro entre os presidentes de Brasil e Estados Unidos.(Imagem: Ricardo Stuckert / Presidência da República).

O presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou neste sábado (12), em Curitiba, que já advertiu Donald Trump para não interferir nas eleições brasileiras. A cobrança ocorre em uma campanha na qual o indicado pelo presidente americano para comandar a Embaixada dos Estados Unidos em Brasília já declarou que não pretende se envolver no pleito brasileiro.

“O Trump sabe que eu já falei para ele: não se meta na eleição do Brasil”, afirmou Lula durante comício na capital paranaense. O petista disse que o país “não é um vira-lata e nem uma republiqueta de banana” e sustentou que a escolha do próximo presidente cabe aos brasileiros.

A declaração coloca Trump novamente no discurso eleitoral de Lula. O presidente brasileiro afirma que já fez a advertência diretamente ao americano, mas o material disponível não informa quando essa conversa específica ocorreunem permite vinculá-la a um determinado contato entre os dois presidentes.

Indicado de Trump prometeu distância da eleição brasileira

Em entrevista divulgada em agosto, Daniel Perez, indicado por Trump para comandar a Embaixada dos EUA em Brasília, afirmou que não teria envolvimento na eleição brasileira e que trabalharia com quem saísse vencedor.

“Não haverá nenhum envolvimento da minha parte em relação à eleição no Brasil”, declarou Perez. Segundo ele, a escolha cabe aos brasileiros e o vencedor seria o líder com quem trabalharia.

A declaração tem um limite importante: expressa a posição de Perez e não constitui compromisso de Trump ou de todo o governo americano. Também não permite concluir, por si só, se haverá ou não algum tipo de atuação dos Estados Unidos durante a campanha brasileira.

Enquanto Lula leva a preocupação com interferência estrangeira ao palanque, o processo eleitoral já conta com acompanhamento externo institucionalizado. Em 4 de setembro, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) informou que formalizou a atuação de missões internacionais para as eleições de 2026. A equipe da União Europeia poderá analisar redes sociais e desinformação, tecnologia, legislação, partidos, campanhas e financiamento e comunicar ao Tribunal eventuais irregularidades e interferências observadas ou relatadas. A missão atua de forma técnica, independente e imparcial.

O acompanhamento é mais amplo: pelo menos sete organizações internacionais foram convidadas pelo TSE, entre elas União Europeia, Organização dos Estados Americanos (OEA) e Parlamento do Mercosul (Parlasul). Os observadores poderão acompanhar etapas que vão da preparação à votação, apuração e totalização dos votos.

Lula Trump eleições já vinham aparecendo no discurso

A advertência feita em Curitiba não surgiu isoladamente. Lula já havia defendido publicamente que Trump mantivesse distância do processo eleitoral brasileiro e voltou ao assunto na sexta-feira (11), quando afirmou que cobraria respeito às eleições durante encontro previsto entre os dois em Nova York, no período da Assembleia Geral da ONU.

No comício deste sábado, Lula também vinculou o tema à oposição. Criticou a presença de bandeiras americanas em manifestações de adversários e afirmou que integrantes da família Bolsonaro e seus apoiadores foram aos Estados Unidos pedir intervenção no Brasil. Ao mesmo tempo, disse que deseja manter uma boa relação com os americanos.

A passagem pelo Paraná também teve um componente local. Lula pediu votos para Requião Filho (PDT), candidato ao governo estadual coligado com o PT, e fez críticas indiretas a Sergio Moro (PL), que também disputa o cargo. Janja e Gleisi Hoffmann (PT), candidata ao Senado, participaram do comício.

A cobrança de Lula a Trump, portanto, ocorre em paralelo a dois elementos distintos que não devem ser confundidos: a promessa individual do indicado à Embaixada de não participar da disputa e o acompanhamento independente das eleições por missões internacionais. Nenhum deles comprova ou descarta uma eventual interferência americana, mas o trabalho dos observadores cria um canal formal para que irregularidades e interferências observadas ou relatadas sejam comunicadas ao TSE.

Foto de Eloiza Matarese

Eloiza Matarese

Eloiza Matarese é jornalista do J1 News Brasil, com atuação em Política e Poder. Produz conteúdos estratégicos e analíticos sobre governos, eleições, decisões públicas e articulações institucionais, com olhar investigativo voltado a identificar impactos, contradições e desdobramentos relevantes para o leitor.

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