Contratos de até R$ 2 milhões e mensagens levam PF a avançar sobre caso de Cezinha

PF reúne contratos de até R$ 2 milhões, mensagens sobre processos e R$ 510 mil em espécie em investigação que envolve Cezinha de Madureira.
Cezinha de Madureira durante reunião de comissão na Câmara dos Deputados
Cezinha de Madureira durante reunião na Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática (CCTCI) da Câmara.(Imagem: Reprodução).

A investigação do deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP), que levou a Polícia Federal a cumprir buscas nesta segunda-feira (14), reúne contratos milionários vinculados ao resultado de processos, mensagens sobre despachos com ministros e uma divisão de tarefas que, segundo a PF, teria sido usada para comercializar influência perante tribunais superiores.

Entre os documentos analisados aparecem R$ 500 mil, R$ 1 milhão e um aditivo de R$ 2 milhões, relacionados a diferentes causas. A apuração também passou a abranger os R$ 510 mil em espécie encontrados com a advogada Valéria Rodrigues Linhares no Aeroporto de Congonhas, em agosto.

O material registra ainda o compartilhamento de um contato identificado como “Júnior Mano Dep JM1”. Júnior Mano (PSB-CE) é deputado federal pelo Ceará e primeiro suplente de Cid Gomes (PSB) na chapa ao Senado nas eleições de 2026.

Investigação de Cezinha reúne contratos e mensagens sobre processos

Este desdobramento se apoia em dados extraídos do celular de Mariângela Fialek, conhecida como Tuca, apreendido em dezembro de 2025 durante a Operação Transparência. A partir das conversas e documentos encontrados, a PF descreveu uma possível estrutura envolvendo Mariângela, Valéria e Cezinha.

Segundo a representação policial acolhida pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), Mariângela estaria ligada à captação de causas e elaboração de peças jurídicas, enquanto Valéria aparece relacionada à formalização dos contratos. A Cezinha, os investigadores atribuem contatos e “despachos” com ministros, valendo-se do trânsito institucional decorrente do mandato parlamentar.

A investigação busca esclarecer possível comercialização de influência perante integrantes do STF, Superior Tribunal de Justiça (STJ) e Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Os magistrados mencionados não são investigados nesse caso, e não há, nos elementos apresentados, notícia de solicitação, aceitação ou recebimento de vantagem indevida por integrantes do Judiciário.

Na Reclamação 79.545, relacionada à defesa da prefeita de Beberibe (CE), havia previsão de R$ 500 mil em honorários após o julgamento. Em diálogo reproduzido na investigação, Mariângela pergunta a Cezinha se havia despachado sobre o processo. Ele responde: “Despachei sim / Ontem”.

A própria Reclamação 79.545 teve outro desdobramento relevante no STF. Em agosto de 2026, a Segunda Turma manteve decisão que declarou nulas diligências realizadas pelo Ministério Público do Ceará antes da submissão da investigação à supervisão judicial competente. Os elementos produzidos após a supervisão foram preservados. 

Confira o documento da Reclamação 79.545

O arquivo é o inteiro teor do acórdão da Reclamação 79.545, relatado pelo ministro Nunes Marques. O documento é público e corresponde a um dos processos mencionados na investigação. Ele não é a íntegra da investigação de Cezinha.

Na Reclamação 76.831, Cezinha relata que seria atendido por um ministro e faria um pedido. Dino avaliou, em análise preliminar, que as expressões indicariam que o parlamentar não se limitava ao encaminhamento de peças, mas se comprometia a formular pessoalmente uma solicitação ao julgador.

Já na Reclamação 81.608, documentos previam R$ 1 milhão em honorários para a sociedade de advocacia de Valéria e um aditivo de R$ 2 milhões condicionado ao êxito na obtenção da liberdade do cliente.

R$ 510 mil entram na apuração e Dino autoriza buscas

Outro elemento foi incorporado à investigação depois que Valéria foi abordada, em 25 de agosto de 2026, no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, transportando R$ 510 mil em espécie na bagagem de mão.

A defesa afirmou que o dinheiro seria proveniente de honorários advocatícios recebidos de um cliente e informou que apresentaria comprovação fiscal. Dino considerou haver conexão probatória e determinou a transferência ao STF dos procedimentos abertos para investigar a apreensão.

A decisão, porém, não estabelece que os R$ 510 mil tenham origem nos contratos de R$ 500 mil, R$ 1 milhão ou R$ 2 milhões. A procedência dos recursos permanece sob investigação, e o Supremo ainda deverá decidir sobre eventual desmembramento dos procedimentos.

Dino autorizou buscas em endereços residenciais e profissionais ligados a Cezinha e Valéria, em Brasília e São Paulo, permitindo a apreensão de computadores, celulares, outras mídias e dinheiro em espécie acima de R$ 10 mil. O ministro, contudo, negou a busca no gabinete de Cezinha na Câmara, por considerar insuficientes os elementos concretos para justificar a diligência naquele local.

Júnior Mano aparece pela segunda vez em material ligado a Mariângela

Uma das páginas examinadas registra que “MARIÂNGELA compartilhou o contato ‘Júnior Mano Dep JM1’”. A identificação corresponde a Júnior Mano, deputado federal pelo Ceará e primeiro suplente de Cid Gomes na disputa pelo Senado em 2026.

Não é a primeira referência ao parlamentar em material apreendido com Mariângela. Em dezembro de 2025, uma anotação manuscrita encontrada com a ex-assessora mencionava um pedido de transferência de recursos de emendas inicialmente destinados a Nova Russas para Reriutaba, ambos no Ceará.

Naquela apuração, a PF não atribuía a Júnior Mano participação no esquema investigado nem irregularidade naquele episódio. O deputado afirmou que o remanejamento era regular e que não chegou a ser efetivado porque o procedimento foi cancelado.

Os registros têm contextos distintos: o de 2025 tratava de emendas; o atual registra o compartilhamento do contato. A nova página não atribui a Júnior Mano pagamento, contrato, pedido a ministro ou atuação nas três reclamações citadas. A recorrência documental, portanto, não comprova participação do deputado nas condutas investigadas.

A investigação de Cezinha apura, em tese, tráfico de influência, exploração de prestígio, corrupção passiva e lavagem de dinheiro. As buscas não representam conclusão de culpa. A análise dos aparelhos e demais materiais apreendidos deverá esclarecer a origem e o destino dos recursos, o contexto integral das mensagens e se os elementos encontrados sustentam novas medidas.

Foto de Eloiza Matarese

Eloiza Matarese

Eloiza Matarese é jornalista do J1 News Brasil, com atuação em Política e Poder. Produz conteúdos estratégicos e analíticos sobre governos, eleições, decisões públicas e articulações institucionais, com olhar investigativo voltado a identificar impactos, contradições e desdobramentos relevantes para o leitor.

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