O núcleo hacker do Banco Master aparece na decisão da Operação Compliance Zero como uma frente tecnológica da estrutura investigada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), na sexta fase que prendeu Henrique Moura Vorcaro, pai do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, deflagrada nesta quinta-feira (14/05).
Chamado de “Os Meninos”, o grupo é descrito como núcleo de perfil digital, suspeito de reunir operadores voltados a invasões telemáticas, monitoramento ilegal, derrubada de perfis e ataques cibernéticos no caso ligado à família Vorcaro.
A Polícia Federal (PF) informou que a nova fase aprofunda a apuração sobre organização criminosa suspeita de intimidação, coerção, obtenção de informações sigilosas e invasões a dispositivos informáticos. A operação cumpriu sete prisões preventivas e 17 buscas em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.
O ponto novo é a dimensão tecnológica da apuração. A suspeita não se limita a dinheiro, influência ou acesso a dados reservados. Segundo a investigação, havia uma frente capaz de vigiar alvos, interferir em ambientes digitais e lidar com evidências armazenadas em equipamentos eletrônicos.
Núcleo hacker Banco Master aparece como frente tecnológica
A decisão separa a estrutura investigada em dois núcleos operacionais. “A Turma” teria atuação ligada a intimidação, monitoramento presencial e obtenção de informações. Já “Os Meninos” aparecem como grupo de perfil hacker, com suspeita de atuar sobre dados, comunicações, perfis e rastros eletrônicos.
Com essa divisão, o caso ganha uma camada técnica. A PF não descreve apenas ações presenciais ou contatos externos, mas uma frente capaz de interferir no ambiente digital em que ficam mensagens, acessos e registros relevantes para a investigação.
O investigado David Henrique Alves é apontado como líder desse núcleo. Segundo o material da decisão do ministro, ele comandaria operadores especializados em ataques cibernéticos, invasões telemáticas, derrubada de perfis e monitoramento digital ilegal.
A presença desse núcleo altera o valor das provas. Em uma investigação financeira complexa, mensagens, acessos, planilhas, notas fiscais e rotas de comunicação podem indicar quem pagou, quem executou ordens e quem tentou apagar rastros.
R$ 35 mil por mês dão materialidade à atuação digital
A decisão atribui um dado financeiro à frente tecnológica. Segundo a PF, Davi teria sido remunerado por Felipe Mourão, o Sicário, em valor mensal de R$ 35 mil, com ingresso de recursos por meio da empresa Bip Software Brasil.
A investigação também identificou que Henrique Moura Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro, estaria realizando pagamentos à organização criminosa. Para a PF, ele exercia papel relevante na sustentação financeira da estrutura investigada, o que conecta o núcleo digital ao fluxo de recursos atribuído ao grupo.
Esse valor dá materialidade à suspeita. O grupo não aparece apenas como apoio eventual ou conversa solta. A remuneração mensal, se comprovada, indica prestação regular de serviços tecnológicos dentro da estrutura investigada.
O nome de Felipe Mourão conecta os núcleos. A decisão cita o Sicário como personagem ligado à coordenação das frentes operacionais.
Nesse desenho, a frente hacker não aparece como peça isolada. A tese investigativa aponta uma estrutura com financiamento, comando, operadores presenciais e operadores digitais, cada um com função própria dentro do grupo.
A análise dos dados leva a um ponto central: se havia pagamento mensal e divisão de tarefas, a PF trata a atuação digital como parte funcional da organização investigada, não como recurso periférico.
A apuração sobre o núcleo digital ocorre uma semana depois de a 5ª fase da Operação Compliance Zero ter atingido o senador Ciro Nogueira (PP-PI), entre os investigados em etapa que apurou corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes contra o Sistema Financeiro Nacional.
Computadores e malas elevam suspeita sobre provas digitais
Outro ponto sensível é o transporte de equipamentos. Segundo o material citado, Davi teria sido identificado na noite de 4 de março de 2026 conduzindo um veículo de Felipe Mourão e transportando computadores, notebooks, caixas e malas.
A data pesa no contexto da apuração. O episódio coincide com a deflagração da terceira fase da Operação Compliance Zero, quando Daniel Vorcaro e Felipe Mourão foram presos preventivamente. Assim, o material foi interpretado como indicativo de fuga e possível ocultação ou destruição de provas.
Em uma investigação com suspeita de ataques cibernéticos do Banco Master, computadores e celulares não são objetos acessórios. Eles podem guardar credenciais, conversas, softwares, registros de acesso, arquivos apagados, documentos copiados e sinais de monitoramento.
Por isso, a suspeita sobre o deslocamento dos equipamentos amplia o peso do núcleo tecnológico. A questão passa a ser se havia tentativa de retirar de circulação material capaz de explicar como a frente digital atuava e quem se beneficiava dela.
A PF também informou que investiga crimes de ameaça, corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa, invasão de dispositivos informáticos e violação de sigilo funcional. Esse conjunto coloca o hacker Banco Master dentro de uma apuração que combina dinheiro, intimidação, tecnologia e proteção de interesses privados.
O núcleo hacker do Banco Master dá ao caso Vorcaro uma dimensão menos visível, mas decisiva. A investigação terá de demonstrar quem financiava e comandava a estrutura. Além disso, terá de explicar como a frente digital teria sido usada para vigiar pessoas, atacar sistemas e comprometer provas.