A 6ª fase da Operação Compliance Zero colocou a Polícia Federal (PF) diante de uma suspeita interna nesta quinta-feira (14/05): informações sigilosas da própria corporação teriam sido acessadas e repassadas a integrantes do grupo ligado ao Banco Master.
A decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou sete prisões preventivas e 17 mandados de busca e apreensão. Em nota, a PF afirmou que a fase apura organização criminosa suspeita de intimidação, coerção, obtenção de informações sigilosas e invasões a dispositivos informáticos.
Além da prisão de Henrique Moura Vorcaro, pai do banqueiro Daniel Vorcaro, a operação incluiu ordens de afastamento de cargos públicos e bloqueio de bens. Se dados reservados circularam entre investigados, havia risco de antecipação de diligências, proteção de alvos e perda de provas.
Delegada da PF é citada em suspeita de repasse de dados
A Operação Compliance Zero já apurava suspeitas de crimes financeiros ligados ao Banco Master. Com a nova fase, a investigação passa a incluir uma camada mais sensível: a hipótese de que pessoas com acesso ou trânsito na estrutura policial tenham servido como ponte para informações reservadas.
Segundo a decisão, a delegada da Polícia Federal Valéria Vieira Pereira da Silva e o marido dela, Francisco José Pereira da Silva, agente aposentado da corporação, são citados por suposto repasse de dados a Marilson Roseno da Silva, policial federal aposentado apontado como liderança operacional do núcleo “A Turma”.
A cadeia descrita pela investigação tem quatro pontos principais:
- Valéria teria consultado procedimento interno da PF;
- Francisco teria atuado como possível intermediário;
- Marilson teria recebido informações e repassado ao grupo;
- o conteúdo permitiria identificar objeto da investigação e pessoas visadas.
A gravidade está no efeito prático. Informação sigilosa, nesse contexto, não é detalhe burocrático. Pode indicar quem está sob apuração, qual diligência pode ocorrer e quais provas podem interessar à polícia.
Vazamento poderia afetar buscas, prisões e provas
Na prática, o vazamento da PF no caso Vorcaro, se confirmado, muda a escala pública da investigação sobre o Banco Master. A apuração deixa de tratar apenas de suspeitas financeiras e passa a medir a capacidade do Estado de preservar procedimentos contra interferências internas.
A decisão aponta que o conteúdo compartilhado teria sido suficientemente detalhado para identificar o objeto investigado e pessoas efetivamente visadas. O documento também menciona suspeita de exclusão de conversas e vínculos de confiança entre os envolvidos.
Em uma operação com prisões preventivas, buscas e apreensões, vantagem informacional pode ter efeito direto. Um investigado que conhece previamente o alcance de uma apuração pode trocar aparelhos, apagar mensagens, deslocar documentos ou ajustar rotas de comunicação.
Esse é o ponto que diferencia a nova fase. A suspeita não trata apenas de alguém de fora tentando descobrir o que a polícia sabia. O caso envolve a possibilidade de que a informação tenha saído do ambiente responsável por proteger o sigilo.
A presença de uma delegada da PF citada na investigação, de um agente aposentado e de um policial federal aposentado cria uma tensão adicional para a própria corporação. A PF investiga o grupo externo e, ao mesmo tempo, possíveis canais internos usados para alimentar esse grupo.
As suspeitas ainda dependem da análise das provas, do contraditório e do avanço processual. A defesa da delegada negou vazamento de dados e afirmou que ela não cometeu irregularidade.
Pagamentos ligam dados sigilosos à estrutura do grupo
A decisão de André Mendonça descreve dois núcleos operacionais. “A Turma” teria atuação ligada a demandas ilícitas, intimidação e acesso a informações. “Os Meninos” teria perfil tecnológico, com suspeitas de ataques cibernéticos, invasões telemáticas e monitoramento digital ilegal.
Henrique Moura Vorcaro é apontado pela investigação como demandante de serviços ilícitos e operador financeiro de pagamentos ao grupo. O documento menciona cobranças, repasses de R$ 400 mil e discussão sobre valor maior para manter atendimentos atribuídos aos investigados. Nesse contexto, a decisão também cita Felipe Mourão, o Sicário, apontado como personagem ligado à operação do grupo e que morreu por suicídio ao ser preso em fase anterior da investigação.
Essa descrição dá ao caso uma dimensão mais organizada. A suspeita envolve quem pagava, quem acessava dados sigilosos da PF, quem transmitia informações e quem executava demandas fora dos canais legais. Para a PF, não se trataria de contato episódico, mas de divisão de funções.
A prisão do pai de Daniel Vorcaro ganha peso por esse contexto. A investigação atribui a Henrique posição relevante na manutenção financeira de serviços ilícitos após fases anteriores da operação, ponto usado para sustentar a necessidade das prisões preventivas.
A sexta fase da Operação Compliance Zero deixa o caso Banco Master em outro patamar de risco público. A suspeita de circulação de dados sigilosos entre investigados transforma uma apuração financeira em teste sobre a blindagem do Estado diante de grupos com dinheiro, acesso e capacidade de interferência.