O Caso Dark Horse abriu uma nova frente de disputa dentro do Supremo Tribunal Federal (STF) nesta segunda-feira (22). Em parecer enviado à Corte, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, afirmou que o ministro André Mendonça deve ser o responsável por analisar o pedido de investigação envolvendo recursos destinados ao filme. Assim, ele afasta a competência de Alexandre de Moraes.
A manifestação tem impacto direto sobre um pedido apresentado pelo deputado Lindbergh Farias (PT-RJ), que busca apurar supostos repasses solicitados pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ligado ao Banco Master. Antes de decidir sobre a abertura da investigação, Moraes consultou a Procuradoria-Geral da República.
A discussão ultrapassa o mérito das suspeitas. Ela se concentra, neste momento, em uma questão estratégica: qual ministro terá o controle sobre eventuais diligências, quebras de sigilo e decisões futuras relacionadas ao caso.
O envio do tema ao presidente do STF, Luiz Edson Fachin, leva a discussão para a esfera administrativa da Corte. É ali que será definida a estrutura processual que conduzirá os próximos passos da apuração. O gabinete responsável por eventuais decisões futuras também será definido nesse contexto.
Caso Dark Horse no STF: por que a PGR defende André Mendonça
Segundo Paulo Gonet, os fatos narrados por Lindbergh Farias possuem ligação com procedimentos já existentes na Suprema Corte relacionados ao Banco Master e a Daniel Vorcaro.
No parecer, o procurador-geral destacou que o episódio mencionado na representação já integra um procedimento próprio que tramita sob a supervisão de André Mendonça. Esse é o argumento utilizado para defender a redistribuição do caso.
A lógica adotada pela PGR segue o princípio da prevenção. Este mecanismo jurídico busca concentrar investigações relacionadas sob a condução do mesmo relator para evitar decisões conflitantes e sobreposição de apurações.
A discussão sobre prevenção ganhou relevância porque o Supremo tem adotado esse critério em casos complexos com múltiplas frentes de investigação. Nesses cenários, a definição do relator não altera o mérito das apurações. No entanto, ela influencia a centralização de informações, a tramitação dos procedimentos e a análise de pedidos apresentados ao tribunal.
Na prática, a tese apresentada pela PGR indica que o Supremo vê uma possível conexão entre o financiamento do filme e as apurações já existentes envolvendo Daniel Vorcaro. Esse elemento é considerado suficiente para justificar a concentração dos procedimentos sob uma mesma relatoria.
O que Fachin terá de decidir agora
Após receber a manifestação da Procuradoria-Geral da República, Alexandre de Moraes encaminhou a questão ao presidente do STF, Luiz Edson Fachin.
O ministro terá três caminhos possíveis:
- Manter o pedido sob a relatoria de Alexandre de Moraes;
- Transferir a investigação para André Mendonça;
- Determinar uma nova distribuição por sorteio entre ministros da Corte.
A escolha também servirá como referência para futuras discussões de conexão entre investigações envolvendo o Banco Master e seus possíveis desdobramentos dentro do Supremo.
A decisão será observada com atenção porque envolve dois ministros frequentemente associados a posições distintas em processos de elevada repercussão política e institucional.
Disputa pela relatoria aumenta peso político da investigação
A equipe de Flávio Bolsonaro, pré-candidato do PL à Presidência da República, reagiu rapidamente ao parecer da PGR. Em nota, afirmou que Paulo Gonet defendeu a incompetência de Alexandre de Moraes para conduzir o caso e sustentou a redistribuição para André Mendonça.
O debate sobre quem ficará com a investigação ocorre em um momento em que o Caso Dark Horse passou a ocupar espaço relevante no embate político entre governistas e aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro. A controvérsia deixou de envolver apenas o financiamento do filme. Ela passou a integrar uma disputa mais ampla sobre investigações, atuação política e seus reflexos no cenário eleitoral.
Embora a controvérsia esteja concentrada na definição do relator, o episódio reforça a dimensão política alcançada pelo caso. O pedido de investigação surgiu dentro do inquérito que resultou na condenação de Eduardo Bolsonaro por coação à Justiça. Essa circunstância foi utilizada por Lindbergh Farias para sustentar a existência de conexão entre os fatos.
A decisão de Fachin definirá apenas o destino processual imediato da investigação. Ainda assim, o despacho terá efeito relevante porque estabelecerá qual gabinete do STF passará a conduzir um dos desdobramentos mais sensíveis envolvendo Flávio Bolsonaro, Daniel Vorcaro e o Banco Master. Esses personagens já ocupam espaço central em diferentes frentes de debate político e jurídico no país.
Independentemente da decisão do presidente do Supremo, a definição da relatoria terá peso institucional. Em investigações de grande repercussão, a escolha do ministro responsável costuma influenciar a organização processual, a concentração das informações e o ritmo de análise dos pedidos apresentados à Corte. Por isso, esta é a primeira disputa relevante do Caso Dark Horse dentro do STF.