O governo federal decidiu renovar por mais seis meses a cota que permite a importação de carros elétricos desmontados e semimontados sem cobrança de imposto de importação. A medida entra em vigor em 1º de julho e envolve um limite de US$ 463 milhões em operações.
A decisão foi tomada pelo Comitê-Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Gecex). Ela beneficia os modelos importados nos formatos CKD e SKD. Esses formatos são utilizados por fabricantes que trazem componentes do exterior para montagem final em território brasileiro.
O anúncio provocou reação imediata da indústria automotiva nacional. A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) afirma que a medida altera uma política anteriormente pactuada com o setor. Além disso, cria incerteza para empresas que anunciaram R$ 140 bilhões em investimentos no país até 2033.
O embate expõe uma disputa crescente sobre qual modelo deve conduzir a expansão dos veículos eletrificados no Brasil. De um lado, o governo defende medidas para acelerar a eletrificação da frota. De outro, montadoras cobram incentivos que priorizem produção local, fornecedores nacionais e geração de empregos.
Importação de carros elétricos reabre debate sobre política industrial
A nova resolução restabelece uma condição que havia expirado em janeiro deste ano. Com a renovação, veículos desmontados e semidesmontados poderão continuar entrando no país sem recolhimento do imposto de importação até o limite definido pelo governo.
Acima da cota estabelecida, permanecem as tarifas já previstas:
- 35% para veículos SKD
- 14% para veículos CKD
- Carros totalmente importados seguem fora do sistema de cotas
Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, a medida faz parte da estratégia de renovação da frota. Ela busca estimular a descarbonização da matriz de transportes, ampliando a oferta de veículos com menor emissão de carbono.
Na prática, a renovação da cota reduz o custo de importação dos kits utilizados na montagem local de veículos elétricos. O governo avalia que isso pode ampliar a oferta de modelos no mercado brasileiro. Por outro lado, as montadoras argumentam que o benefício diminui o incentivo para nacionalizar componentes e ampliar a produção de peças fabricadas no país.
Montadoras afirmam que decisão afeta investimentos já anunciados
A principal crítica da Anfavea é que o governo prorrogou um benefício que havia sido criado como temporário. A entidade sustenta que diversas empresas estruturaram seus planos de expansão considerando o cronograma original de encerramento das cotas.
Em nota, a associação afirma que a decisão foi tomada sem consulta ao setor produtivo. Isso pode comprometer a previsibilidade regulatória necessária para novos investimentos industriais. Para o setor, mudanças em regras previamente estabelecidas elevam a percepção de risco para projetos de longo prazo.
A entidade destaca que as fabricantes anunciaram R$ 140 bilhões em investimentos até 2033, destinados à eletrificação, pesquisa, engenharia, modernização industrial e ampliação da cadeia nacional de fornecedores.
Os números apresentados pela associação indicam avanço da produção local. Em 2025, os veículos eletrificados fabricados no Brasil responderam por 25,9% das vendas do segmento. Já no acumulado até maio de 2026, o mercado abastecido por produção nacional cresceu 57% na comparação com o mesmo período do ano anterior.
BYD e montadoras ampliam disputa pelo futuro do mercado brasileiro
A discussão sobre a cota para carros elétricos importados ganhou força após um pedido da fabricante chinesa BYD. O pedido buscava reduzir o custo de importação dos kits utilizados na montagem local de seus veículos.
Antes da decisão do Gecex, Volkswagen, Stellantis, General Motors e Toyota enviaram uma carta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na carta, alertavam para possíveis impactos sobre a indústria nacional. As empresas argumentaram que a ampliação do benefício poderia reduzir a demanda por autopeças produzidas no Brasil. Além disso, poderia afetar postos de trabalho ao longo da cadeia automotiva.
A BYD respondeu afirmando que a reação das montadoras tradicionais reflete a dificuldade de adaptação a um mercado mais competitivo e tecnológico. Para a empresa chinesa, a ampliação das condições de importação favorece a expansão da mobilidade elétrica e acelera a modernização do setor.
O conflito revela uma disputa que ultrapassa a discussão tributária. O governo busca acelerar a transição para veículos de menor emissão. Enquanto isso, fabricantes instaladas no país defendem que a próxima fase da eletrificação esteja associada ao aumento da produção nacional, ao fortalecimento da cadeia de fornecedores e à geração de empregos industriais. O debate ocorre justamente no momento em que novos investimentos, concorrência internacional e mudanças tecnológicas redefinem os rumos da indústria automotiva brasileira.