Mercosul testa novo rumo após queda de Maduro enquanto crise na Venezuela muda agenda da cúpula

A cúpula do Mercosul reúne presidentes em um momento de mudanças na América do Sul. A crise humanitária na Venezuela e a expansão dos acordos comerciais colocam o bloco diante de decisões que podem influenciar a integração regional nos próximos meses.
Bandeira oficial do Mercosul hasteada durante cobertura sobre a cúpula do bloco, que debate apoio à Venezuela e novos acordos comerciais.
Bandeira do Mercosul ilustra a 68ª Cúpula de Chefes de Estado, marcada pela crise humanitária na Venezuela e pela ampliação das negociações comerciais do bloco.(Imagem:Gov).

A 68ª Cúpula do Mercosul, realizada nesta terça-feira (30), no Paraguai, acontece em um momento de mudanças políticas e humanitárias na América do Sul. Além da agenda voltada à integração econômica, os presidentes discutirão formas de coordenar apoio à Venezuela após os terremotos que atingiram o país. Enquanto isso, avançam nas negociações para ampliar a presença internacional do bloco.

O encontro reúne os presidentes de Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai, Bolívia, Chile e Equador. Juntos, os países representam 73% do território sul-americano e 70,2% do Produto Interno Bruto (PIB) da região. Esses indicadores reforçam o peso do Mercosul nas decisões econômicas e políticas do continente. Além disso, explicam o interesse de outros mercados em negociar com o bloco.

A crise humanitária na Venezuela e o novo cenário político no país alteraram o contexto da reunião. Embora a reintegração venezuelana não esteja prevista na pauta oficial, o tema voltou ao centro das discussões diplomáticas. Isso ocorre especialmente diante da necessidade de coordenação regional para responder aos efeitos da tragédia.

Além das medidas emergenciais, a cúpula será acompanhada de perto porque pode indicar como o Mercosul pretende conciliar sua agenda econômica com desafios políticos regionais. Ademais, o posicionamento adotado pelos líderes servirá de referência para a atuação do bloco durante a próxima presidência temporária. Essa presidência será exercida pelo Uruguai.

Venezuela permanece suspensa, mas volta ao centro das discussões

A Venezuela aderiu ao Mercosul em 2012, mas está suspensa desde 2016 por descumprimento de compromissos previstos no protocolo de adesão. Em 2017, os países-membros aprovaram uma nova suspensão com base no entendimento de que havia ruptura da ordem democrática.

Após a mudança de comando no país, a presidência paraguaia iniciou consultas sobre uma eventual retomada do diálogo com representantes venezuelanos. No entanto, apesar desse novo cenário político, não há previsão de que a reintegração seja discutida ou votada nesta cúpula, segundo a expectativa das autoridades envolvidas nas negociações.

Para voltar ao bloco, a Venezuela dependeria de uma decisão política dos países-membros e do cumprimento das regras previstas pelos protocolos do Mercosul. Isso inclui compromissos institucionais assumidos pelos integrantes. Esse debate, no entanto, permanece em segundo plano diante da emergência humanitária.

O foco imediato é a assistência às vítimas dos terremotos. Segundo autoridades venezuelanas, os tremores deixaram 1.450 mortos e 3.238 feridos, além de provocar novos registros sísmicos nos dias seguintes. Por isso, o governo brasileiro mobilizou quatro aeronaves da Força Aérea Brasileira (FAB) para transportar medicamentos, suprimentos e equipes de resgate. Isso reforça o esforço regional de ajuda humanitária.

Acordos comerciais entram em nova fase no Mercosul

Além da crise na Venezuela, a reunião do Mercosul marca uma nova etapa da estratégia comercial do bloco. Esta é a primeira cúpula após a entrada em vigor provisória do acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia. Esse acordo encerra mais de duas décadas de negociações.

O acordo também fortaleceu a posição internacional do bloco e ampliou seu poder de negociação com outros parceiros. Ademais, esse novo ambiente comercial favorece a abertura de tratativas com economias estratégicas, como Japão, Índia e Panamá. Além disso, aprofunda as conversas com República Dominicana, Guiana, Suriname e Trinidad e Tobago.

Na reunião desta terça-feira, a expectativa é pelo lançamento oficial das negociações de um acordo comercial com o Japão. Esse tema já havia sido discutido por Luiz Inácio Lula da Silva e a primeira-ministra japonesa, Takaichi Sanae, durante encontros paralelos ao G7.

Mudança de cenário amplia o peso político da cúpula

Ao final da reunião, o Paraguai transferirá a presidência temporária do Mercosul ao Uruguai, que ficará responsável pela coordenação do bloco pelos próximos seis meses.

A mudança ocorre em um momento de reorganização regional. Além de manter a expansão dos acordos comerciais, o novo comando terá o desafio de acompanhar os desdobramentos da crise humanitária venezuelana e preservar o diálogo entre os países-membros. Desse modo, o resultado dessas articulações poderá influenciar o ritmo da integração sul-americana e o posicionamento internacional do Mercosul no curto prazo.

Foto de Eloiza Matarese

Eloiza Matarese

Eloiza Matarese é jornalista do J1 News Brasil, com atuação em Política e Poder. Produz conteúdos estratégicos e analíticos sobre governos, eleições, decisões públicas e articulações institucionais, com olhar investigativo voltado a identificar impactos, contradições e desdobramentos relevantes para o leitor.

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