O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou nesta sexta-feira (3) que as sanções dos EUA foram aplicadas contra pessoas e empresas apontadas pelo governo americano por suposta ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC), mas que esses alvos já eram investigados no Brasil pela Polícia Federal (PF) e pela Receita Federal. Segundo ele, a operação deflagrada no mesmo dia demonstra que as apurações nacionais estavam em andamento antes das medidas adotadas pelo governo de Donald Trump.
A declaração ocorre após a Operação Exchange, que cumpriu 11 mandados de prisão temporária contra suspeitos de integrar uma organização especializada em lavagem de dinheiro proveniente do tráfico internacional de drogas. Entre os alvos estão Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira, presa na operação, e Victor Henrique de Oliveira Shimada, considerado foragido. Ambos foram sancionados pelos Estados Unidos nesta semana por suposta ligação com o PCC.
As medidas anunciadas pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos permitem o bloqueio de bens e interesses sob jurisdição americana e proíbem cidadãos e empresas dos EUA de manter relações comerciais com os sancionados. Na prática, as restrições ampliam o isolamento financeiro internacional dos investigados, enquanto as apurações criminais conduzidas no Brasil seguem seu próprio curso.
Embora reconheça a gravidade das organizações criminosas investigadas, Durigan afirmou que o governo brasileiro vê com preocupação o alcance das iniciativas adotadas unilateralmente pelos Estados Unidos. Ao sustentar que as investigações brasileiras antecederam as sanções, o ministro procura reforçar o protagonismo das autoridades nacionais no combate à lavagem de dinheiro ligada ao crime organizado e defende que a cooperação internacional ocorra de forma coordenada.
Sanções dos EUA contra PCC coincidem com operação da PF
Durante entrevista exclusiva ao g1, Durigan afirmou que as empresas atingidas pelas medidas econômicas americanas já estavam sob investigação das autoridades brasileiras havia algum tempo.
Segundo o ministro, a investigação da PF sobre PCC e a atuação da Receita Federal demonstram que o Estado brasileiro vinha reunindo informações antes da divulgação das sanções. A coincidência entre a operação policial e as medidas anunciadas pelos Estados Unidos ampliou a repercussão do caso. Embora tenham origens distintas, ambas recaem sobre investigados que já estavam no radar das autoridades brasileiras.
“Essas empresas já estavam sendo investigadas no Brasil, pela Polícia Federal, pela Receita. A gente já sabia, não tem novidade. Hoje mesmo a polícia faz uma operação, quer dizer que a investigação já estava em curso há um tempo”, declarou o ministro.
A operação realizada nesta sexta-feira teve como foco uma organização suspeita de movimentar recursos provenientes do tráfico internacional de drogas. Entre os principais alvos estão:
- Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira, presa pela Polícia Federal;
- Victor Henrique de Oliveira Shimada, procurado e considerado foragido;
- empresas apontadas como integrantes da estrutura financeira investigada pelas autoridades brasileiras.
Governo cobra troca de informações entre Brasil e Estados Unidos
As medidas anunciadas pelos Estados Unidos representam a primeira rodada de sanções econômicas após Washington classificar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas internacionais. A mudança amplia o uso de instrumentos financeiros contra pessoas e empresas suspeitas de integrar ou financiar essas estruturas, elevando o peso internacional das investigações.
Durigan afirmou que o Brasil não se opõe à cooperação internacional, mas espera reciprocidade no intercâmbio de informações. Segundo ele, houve compartilhamento de dados por parte das autoridades brasileiras durante as investigações, e o governo espera receber o mesmo nível de colaboração quando houver informações relevantes produzidas pelos órgãos americanos.
“Nesses casos de agora, especificamente, houve troca de informações. A própria autoridade brasileira informou ao governo dos Estados Unidos o que se passava aqui. A gente que já estava investigando e punindo essas pessoas e essas empresas”, declarou o ministro.
Governo vê risco de interferência sem coordenação institucional
Ao comentar a estratégia adotada pelos Estados Unidos, Durigan afirmou que o governo brasileiro acompanha com atenção os desdobramentos das sanções e questiona qual será o alcance prático das medidas.
Segundo ele, organizações criminosas como o PCC produzem impacto direto sobre a segurança pública e justificam ações rigorosas de combate. Ainda assim, declarou que o governo considera preocupante qualquer atuação internacional cuja finalidade e forma de execução não sejam claramente coordenadas com as instituições brasileiras.
“O que a gente fica com dúvida, tanto nós quanto a população brasileira, é o que será feito com isso. E esse espaço de ataque, esse espaço de interferência dos Estados Unidos no Brasil, sem que a gente saiba exatamente o que se pretende com isso, é o que nos preocupa”, afirmou.
O episódio inaugura uma nova etapa da cooperação entre Brasil e Estados Unidos no combate ao crime organizado transnacional. A classificação de facções brasileiras como organizações terroristas pelo governo americano tende a ampliar a integração entre medidas financeiras internacionais e investigações conduzidas pelas autoridades brasileiras, ao mesmo tempo em que intensifica o debate sobre os limites da atuação estrangeira em casos que envolvem interesses nacionais.