Um novo documento das investigações da Polícia Civil de São Paulo ampliou a repercussão do pagamento de R$ 700 mil recebido pelo escritório de advocacia da atual ministra do Superior Tribunal Militar (STM), Verônica Sterman. O homem que aparece como proprietário da empresa responsável pela transferência afirmou em depoimento que jamais controlou o negócio e que apenas vendeu seus dados pessoais para a abertura do CNPJ.
O pagamento foi realizado pela ACX ITC Serviços de Tecnologia no fim de 2024, antes da posse de Sterman na Corte Militar. A empresa integra o conjunto de companhias citadas no relatório final da CPMI do INSS como parte de uma estrutura financeira que teria movimentado R$ 39 bilhões, segundo a comissão parlamentar.
O novo elemento não altera, por si só, a explicação apresentada pela ministra, que afirma ter recebido os valores pela elaboração de três pareceres jurídicos. Até então, o foco recaía sobre a origem do pagamento. O depoimento do sócio formal desloca parte da atenção para a própria estrutura da empresa, ao levantar dúvidas sobre quem exercia seu controle efetivo no período das transferências.
O caso também amplia a atenção institucional porque reúne documentos do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), informações da CPMI do INSS e investigações da Polícia Civil paulista. Embora não haja acusação contra a ministra, o novo depoimento aumenta o escrutínio sobre a empresa que realizou o pagamento, hoje alvo de diferentes apurações sobre movimentações financeiras suspeitas.
Depoimento expõe contraste entre empresa milionária e sócio formal
Segundo depoimento prestado à Polícia Civil em janeiro deste ano, Ericsson de Azevedo, de 50 anos, afirmou que recebeu R$ 5 mil para fornecer seus documentos e permitir a abertura da ACX ITC.
O homem declarou que passava por dificuldades financeiras, não participou da administração da empresa e recebia R$ 1 mil sempre que era chamado para assinar documentos, sem saber exatamente do que se tratavam. À polícia, afirmou sobreviver da fabricação de pipas, rabiolas e da venda de rifas, atividade que lhe renderia cerca de R$ 1 mil por mês.
O contraste chamou a atenção dos investigadores porque a ACX ITC possui capital social superior a R$ 100 milhões, enquanto o sócio formal afirma nunca ter administrado a empresa. Para a Polícia Civil, esse depoimento passou a ser um dos elementos usados para compreender quem efetivamente controlava a companhia durante o período em que ela movimentou grandes volumes financeiros.
Empresa já estava no radar antes de o pagamento vir a público
A ACX ITC passou a despertar interesse dos investigadores antes mesmo de o pagamento ao escritório de Verônica Sterman se tornar conhecido. A empresa aparece no relatório final da CPMI do INSS como integrante de uma rede ligada ao empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, e teve o sigilo fiscal quebrado durante os trabalhos da comissão.
Segundo os documentos da CPMI, essa estrutura reúne mais de 40 empresas relacionadas entre si e teria movimentado R$ 39 bilhões. Entre elas está a Victory Trading, sancionada nesta semana pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos por suspeita de integrar uma rede internacional de lavagem de dinheiro ligada ao Primeiro Comando da Capital (PCC).
A conexão entre as empresas ganhou ainda mais relevância porque investigadores identificaram que contas da ACX ITC e da Victory Trading eram movimentadas a partir do mesmo dispositivo eletrônico, informação citada nas investigações para reforçar a hipótese de integração entre as estruturas financeiras analisadas. Já o relatório da Operação Saturno afirma que a ACX ITC apresenta fortes indícios de envolvimento com recursos oriundos do tráfico e registra movimentação financeira de aproximadamente R$ 918,3 milhões, apontando a empresa como possível integrante de uma estrutura voltada à ocultação e dissimulação de valores de origem ilícita.
O que diz a ministra e por que o caso ganhou novo peso
Os pagamentos identificados pelo Relatório de Inteligência Financeira (RIF) abrangem o período entre outubro de 2024 e fevereiro de 2025, quando Verônica Sterman ainda atuava exclusivamente como advogada. Segundo o documento, a transferência de R$ 700 mil foi realizada em parcela única por meio de uma conta da ACX ITC no Banco do Brasil, em São Caetano do Sul.
Questionada sobre a operação, a ministra afirmou anteriormente que os valores correspondem à elaboração de três pareceres jurídicos relacionados a temas criminais envolvendo as atividades da empresa. A reportagem também não localizou processos públicos em que ela tenha representado a ACX ITC ou outras empresas do mesmo grupo econômico. Procurada novamente por meio da assessoria do STM, não houve resposta até a publicação desta reportagem.
O ex-ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Nefi Cordeiro, que também recebeu pagamentos da ACX ITC após deixar a Corte, reiterou que os valores recebidos correspondiam a honorários advocatícios por serviços prestados e afirmou desconhecer Ericsson de Azevedo.
O depoimento do sócio formal não comprova irregularidade nos honorários recebidos pelo escritório da ministra nem invalida sua versão sobre a prestação dos serviços jurídicos. O novo elemento, porém, amplia o foco das investigações sobre quem efetivamente controlava a empresa responsável pelo pagamento e reforça a relevância das apurações sobre a origem dos recursos movimentados pela ACX ITC, aspecto que permanece sob análise das autoridades.